METODOLOGIA DE SELEÇÃO DE

 ÁREAS PARA IMPLANTAÇÃO DE ATERROS SANITÁRIOS

 

 

Claúdio Fernando Mahler

Prof. COPPE/UFRJ

 

Luis Edmundo H. B. da Costa Leite

Prof. EE/UFRJ

 

RESUMO: O presente trabalho compreende uma proposta de Metodologia de Avaliação e Hierarquização, de um universo predefinido de objetos, visando a seleção de áreas para implantação de novos aterros sanitários. Tal metodologia é, em princípio, de aplicação universal. Seu desenvolvimento baseou-se inicialmente na Análise do Valor e, num segundo momento no "Fuzzy Eigenvector Method" ou Lógica Fuzzy.

No caso presente enfoca-se a avaliação comparativa de um conjunto de elementos que fazem parte dos critérios a serem considerados na escolha da área ideal na qual seria implementado um novo aterro sanitário. Tais conjuntos de critérios compreendem aspectos técnicos, econômicos, ambientais e sócio - políticos.

 

 

ABSTRACT: This paper presents a Methodology for Assessment and Ranking of a predefined universe of objects, aiming to the selection of areas for construction of Sanitary Landfills. The methodology is, in principle, for universal application. Its development was based, initially, on the "Value Analysis" and afterwards, in the "Fuzzy Eigenvector Method" or "Fuzzy Logic.

In the present instance, the focus of the study was made to the appraisal of a comparative set of elements which are part of the criteria to be taken into account in the selection of the most suitable area where a Sanitary Landfill is to be developed. Such a set of criteria include technical, economical, environmental as well as social and political aspects.

 

PALAVRAS-CHAVE:

Seleção de áreas, aterros sanitários, resíduos sólidos, lógica fuzzy, análise de valor

 

 

1. INTRODUÇÃO

 

Sempre que alguma administração municipal se vê obrigada a escolher um local de disposição de resíduos sólidos algumas questões são levantadas, tais como:

- Em que região da cidade deverão ser dispostos os resíduos sólidos produzidos?

- Qual região da cidade produz mais resíduos sólidos?

- Qual a composição do resíduo sólido produzido nas diferentes partes da cidade?

- Quanto custará a disposição do resíduo sólido nas diferentes áreas possíveis?

- Seria vantajoso incinerar todo ou parte do resíduo sólido produzido?

- O que fazer com o resto da incineração?

- Qual o equipamento de incineração ideal a ser adquirido considerando as condições do resíduo sólido produzido (umidade, dimensões, etc)?

- Caso se opte pelo aterro sanitário, o que fazer com o líquido percolado produzido? E com os gases?

- A compostagem é técnica e economicamente viável?

- E por que não reciclar?

- Quais fatores políticos deverão ser considerados quando da escolha de uma área da cidade para disposição dos resíduos produzidos?

- Qual a dimensão do aspecto social quanto a escolha de uma área para disposição?

 

Existem inúmeras perguntas e poucas respostas seguras e definitivas. Cada cidade, cada comunidade, sob determinados aspectos terá esta ou aquela solução, que será dentro das circunstâncias de momento a mais adequada, a mais econômica e, a aparentemente ideal. Mas, de qualquer forma, num primeiro momento o lixo, ou resíduo sólido terá que ser disposto em algum local, mesmo que seja apenas uma estação de transbordo. E esta decisão é sempre difícil de ser tomada e passível de inúmeras críticas.

 

Sabe-se que existe hoje um número enorme de sistemas tecnológicos envolvendo diversos níveis de exigências ambientais (EIA/RIMA), vida útil do local escolhido, custo de operação, valor final, custo de manutenção, efeitos sócio - econômicos da área escolhida, etc. As características e condicionamentos, quer dos habitantes, quer do clima, da geografia, facilidade de acessos e comunicações, disponibilidade de mão-de-obra, etc., são também das mais variadas e díspares. Dentre as metodologias de trabalho, qual aquela que  apresenta  uma proposta ambiental, técnica, econômica e politicamente mais adequada ou correta?

 

Diversos escritórios de engenharia e órgãos públicos tem estabelecido seus critérios e procedimentos buscando sistematizar e objetivar o processo de seleção de áreas para aterros. Mais recentemente, por exemplo, Valentini (1997) apresenta três critérios de avaliação multicriterial para a seleção de um local de aterro nas províncias de Pesaro e Urbino na Itália. O sistema multicriterail consiste de uma matriz constituída das categorias ambientais e dos indicadores de impacto. O desenvolvimento da matriz é feito através dos seguintes passos:

I.       a prioridade de cada categoria ambiental à calculada e a soma é normalizada;

II.      a importância de cada interação (fator de impacto x categoria ambiental) é qualificada de 1 a 10;

III.     para cada local a magnitude de cada impacto ambiental é qualificada de acordo com a severidade de 0 a 10;

IV.     o produto magnitude x importância é o impacto da interação;

V.      a soma dos  produtos estabelece o número final;

 

A confecção de uma matriz e seu desenvolvimento resultará um valor obtido, sendo que o maior será o local mais impactante e o menos aceito ambientalmente.

 

Valentini (1997) propõe ainda, para reduzir a subjetividade do processo observar que:

a) os fatores de impacto são diferenciados em principal e particular, de forma a permitir um maior número de fatores de impacto. O fator de impacto principal faz parte do fator de impacto particular, sendo o fator mais representativo;

b) a importância é um valor que varia de 1 a 10, e depois está sujeito a análise de estabilidade dos resultados finais através da variação dos valores de importância (teste de sensibilidade). Este teste permite definir qual o critério mais importante para a hierarquia final dos locais.

 

Fukumoto e Funeichi (1997) tratam das dificuldades para seleção de um local  para a disposição dos resíduos em um país superpovoado, com um relevo montanhoso e com uma alta freqüência de terremotos. Esta elevada ocorrência de terremotos gera uma grande quantidade de entulho que deve ser disposta em um local adequado. De acordo com os autores há uma consciência crescente da necessidade da reciclagem e de tratamentos intermediários para a redução do volume final de rejeitos a ser disposto. O volume de rejeitos disposto em aterros corresponde a 30.3 % do volume total produzido (1993), volume este que tem decrescido ao longo dos anos. Ainda de acordo com Fukumoto e Funeichi, há três fatores chave para a seleção do local do aterro:

1. Armazenamento e tratamento seguros e adequados dos rejeitos;

2. Conservação do meio ambiente;

3. Benefícios do aterro para a comunidade.

 

A abordagem dos autores é extremamente interessante por enfatizar a importância de reconhecimento e consideração de fatores locais como no caso o terremoto. Assim, registre-se a importância de considerar fatores específicos e não apenas fatores preestabelecidos, os quais podem ter uma representatividade incorreta na região em estudo.

Dennison e outros (1997) discorrem sobre as dificuldades legais e sociais para implantação de duas propostas de locais para aterros na Irlanda. Um dos fatores essenciais observado pelos autores foi a proximidade de aeroportos e como isto condicionou a aprovação por órgãos públicos dos locais.

 

Com o mesmo objetivo muitos estudiosos têm pesquisado e proposto critérios, em geral com um enfoque tecnológico dependente de sucessivos ensaios e avaliações laboratoriais. Tais critérios conduzem em geral a uma avaliação "qualitativa" de cada aspecto. Fica entretanto difícil, em geral, "quantificar" e relacionar tais avaliações, e, portanto, estabelecer uma hierarquização das diferentes soluções face aos condicionantes específicos de cada empreendimento.

 

Carecia-se de uma metodologia que permitisse correlacionar entre si, os aspectos técnicos quantitativos e fatores qualitativos como clima, hábitos sócio - culturais da população alvo, geografia morfológica e humana do empreendimento em causa, interesses sociais e/ou políticos, preço final, etc.. Outros autores, como Valentini (1997) perceberam a importância da disponibilidade de metodologias objetivas para auxiliar na "melhor" decisão de escolha de áreas para aterros e fazem uma proposta, que contém certa semelhança com a proposta aqui apresentada.

 

A metodologia aqui proposta procura, portanto, uma vez devidamente estabelecidos os pontos de partida, sintetizar, em um único número final, todos os vários fatores condicionantes. Impõe-se apenas a adequada definição prévia dos diversos critérios de avaliação.

 

Entretanto, para que seja possível estabelecer uma "classificação", é vital que as diferentes localidades passíveis de serem utilizadas estejam preferencialmente sujeitas, em todos os aspectos considerados, a um mesmo projeto. Busca-se, com o presente trabalho, dar uma contribuição para facilitar as administrações municipais, a adotarem o que sob certos aspectos pode-se considerar como a solução técnica e politicamente correta.

 

 

 

2. CONCEITOS BÁSICOS

 

Para conveniente entendimento do conteúdo dos termos aqui freqüentemente empregados, é pertinente apresentar as seguintes explicações:

 

2.1 - Desempenho

 

Qualquer ser e suas realizações materiais, destinam-se a desempenhar funções determinadas.

 

Entende-se pois por "DESEMPENHO" o grau de eficiência com que determinado objeto consegue corresponder às funções para as quais foi idealizado.

 

 

 

 

2.2 - Função

 

O conceito de "FUNÇÃO" corresponde a algum tipo de qualidade desejável para o objeto, de modo a preencher ou atender a uma determinada finalidade específica. Sua inserção neste trabalho, dentro de uma caracterização mais precisa, se deve à importância, na metodologia da Análise do Valor, em separar e caracterizar os diversos elementos componentes de um objeto (ou produto) em curso de análise e objetivar sua utilidade [contribuição para o desempenho de alguma(s) função(ões)].

 

Freqüentemente se considera o termo "Desempenho" no sentido restrito das "funções de utilização". Nada impede contudo que, na avaliação, por exemplo para efeitos de concorrência pública, se tomem em consideração funções além das questões ambientais que necessariamente tem que ser atendidas, outros enfoques como o social (necessidade de ocupação de mão-de-obra ou de aproveitamento de catadores de lixo), o político (prazos de implementação, por exemplo), o urbanístico, o ecológico, o turístico, etc.

 

Dentre as funções que uma local de disposição de resíduos deve prover, pode-se citar:

 

- Conforto acústico e olfativo

- Conforto visual estético

- Segurança ao fogo na drenagem do gás

- Segurança quanto a entrada de catadores

- Segurança estrutural do aterro sanitário

- Transitabilidade dos veículos de coleta e serviços

- Estanqueidade ao líquido percolado (chorume)

- Colmatação dos drenos

- Conforto quanto à poluição atmosférica

- Longevidade do aterro

- Valorização ou desvalorização imobiliária

- Ventilação

- Propiciar trabalho aos moradores da região

- Garantia de qualidade das águas subterrâneas

- Atração de aves e outros animais

 

De tal infinidade de funções se selecionam as mais "relevantes", nas quais se ir basear a "avaliação". Ao usuário interessa o desempenho prático (funções de uso) do produto final e não o método ou dificuldades relativos à sua execução.

 

Condicionamentos específicos de cada local, relativos ao ambiente, que compreende clima (chuva, ventos, umidade do ar, etc.), geografia (lençol de água subterrâneo, topografia, material de empréstimo, etc.), população e indústrias no entorno, distância à maior produção de lixo, vias de acesso, custo final, etc., interessam, basicamente, aos intervenientes iniciais do ciclo de implantação do aterro, ou seja, o órgão municipal.

 

É evidente que, além das "funções de uso", conforme já observado, devem ser igualmente consideradas funções e parâmetros de outra ordem como fatores políticos (prazo de implantação, vias de acesso, economia, eventual interesse de gerar empregos diretos e indiretos.), fatores econômicos, e organizacionais, como apoio das populações e indústrias do entorno, etc.

 

Torna-se pois possível estabelecer uma correlação entre as "necessidades" manifestadas pelos usuários (sondagem a ser efetuada pelo serviço social da prefeitura), as "disponibilidades" (recursos, prazos, formas de obter financiamentos, etc.) e os processos de implantação que mais se adaptem ao programa em causa.

 

2.3 - Análise do Valor

 

Em toda a transação existe normalmente um conflito de interesses entre produtor e adquirente ou usuário. A transação só é satisfatória para ambos quando as duas partes conseguem ver atendidos os bens ou "VALORES" que cada uma considera prioritários. Tais itens (preço, por exemplo) têm "valores" diferentes... ou opostos, quando encarados por uma ou outra das partes. Como exemplo a durabilidade de um bem‚ positiva para o usuário mas não tanto para o produtor.

 

A harmonização de tais conflitos, de modo que cada parte considere convenientemente satisfeitas as expectativas (valores) que o levam a interessar-se pelo bem, um dos fins a atingir com a metodologia denominada Análise do Valor.

 

O "VALOR V" ‚ pois definido pelo quociente do Desempenho "D" pelo Custo "C".

 

                        V = D / C                                                     (1)

 

Tal metodologia procura analisar o "valor relativo" que cada uma das partes atribui às diversas "funções" que o bem se propõe desempenhar e, cruzando e comparando tais "valores", determinar quais as partes ou itens do bem que devem merecer maior atenção ou estudo, no sentido de se aumentar o nível de mútua satisfação.

 

Procura afinal, item por item, quantificar e minimizar a relação "Custo/Benefício" que seria o inverso do Valor.

 

Baseando-se em tal metodologia torna-se possível classificar, para determinada construção com projeto e nível de acabamento devidamente especificados, qual, dentre diversas soluções, é a melhor para o problema em causa, segundo os critérios de preferência (qualidade ou porcentagens de satisfação das "funções relevantes") almejados pelos interessados.

 

2.4. - Lógica Fuzzy

 

A Lógica Fuzzy é uma extensão da lógica (boleana) convencional, é utilizada para representar modelos de raciocínio impreciso, que possuem um papel essencial na notável habilidade humana, para tomar decisões racionais em ambientes de incertezas e imprecisões (Zadeh 78). Com o advento dessa teoria, obteve-se uma estrutura conceitual apropriada de tomada de decisão pois a Lógica Fuzzy auxilia a diminuir as subjetividades na escolha e objetivando o raciocínio e o processo de decisão.

 

Assim, nenhum fenômeno interveniente é absoluto. Como exemplo, pode-se citar a distância do local à região de coleta, as características hidro-geológicas do terreno, as características sócio-econômicas, etc. Sua aplicação é extrema conveniente para ocorrências indefinidas ou relativas como a adequação maior ou menor de local para ser usado como aterro de disposição de resíduos sólidos. Esta tomada de decisão consiste na escolha da melhor alternativa locacional de acordo com os critérios preestabelecidos através da avaliação de especialistas. Um modelo fuzzy de análise hierárquica nos auxilia na obtenção de uma avaliação global dos pareceres de cada especialista, buscando um consenso geral. 

 

Tradicionalmente, na teoria dos conjuntos convencionais, um elemento pertence ou não pertence a um conjunto. Os conjuntos fuzzy, uma generalização de um conjunto ordinário, permitem a definição de um grau de dependência para cada elemento, isto é, um número real no intervalo [0,1]. Neste caso, se o grau é zero, o elemento não pertence ao conjunto e, se é 1, o elemento pertence totalmente ao conjunto.

 

Um conjunto Fuzzy ou nebuloso pode ser definido como uma coleção de elementos num universo de informação, onde a fronteira é nebulosa. Tal conjunto contém elementos com vários graus se pertinência, o que nos permite representar melhor os conceitos vagos e incertezas.

 

Um conjunto nebuloso se constitui de pares ordenados, em que o primeiro elemento é x Î X, e o segundo m Ã(x) é o grau de pertinência ou a função de pertinência de x em Ã. Sendo X o conjunto universo, onde ÃÍ X. Em um conjunto fuzzy ou nebuloso, representado por à em X, cada elemento x pode ter um grau de pertinência variando no intervalo real [0,1].

 

à = {( x, m Ã(x)) ½ x Î X }

 

 

As regras que permitem a determinação da função de pertinência de união e interseção de conjuntos Fuzzy são conforme propostas em 1965 por Zadeh:

 

          " A, B Í W µAÈB(W) = max (µA(W),µB(W))             (3)

 

        " A, B Í W µAÇB(W) = min (µA(W),µB(W))             (4)

 

A equação (3) estabelece que a função de pertinência da união é estimada como o máximo entre as correspondentes funções de pertinência consideradas A e B, pois o domínio é definido pela união das duas.

 

A equação (4) por sua vez, define a interseção entre os dois domínios, de forma que a ocorrência do conjunto é definido como a necessidade mínima.

Estas regras são bastante práticas em situações comuns do dia a dia, em que decisões extremamente relevantes tem de ser tomadas com informações por vezes precárias, em que fatores subjetivos estão presentes.

 

3 - ASPECTOS A CONSIDERAR NA SELEÇÃO DE LOCAL

 

Dentre os inúmeros aspectos a considerar numa seleção de local, importante é considerar o maior número possível deles e com um peso ponderado tratando de forma bem objetiva.

 

Assim, nesta definição devem ser considerados fatores geoambientais, fatores técnicos, econômicos e sóciopolíticos.

 

Num primeiro momento os geoambientais seriam:

 

·     características geomorfológicas do solo na região, que compreende qualidades para material de cobertura e quantidade, resistência como material em encosta antes do corte e resistência pós compactação, permeabilidade e compressibilidade como material de recobrimento do resíduo sólido disposto, inclusive pós-fechamento, clima, que compreende pluviometria, incidência solar, umidade do ar, ventos, direção e intensidade, nascentes na região, profundidade, fluxo e qualidade das águas subterrâneas, vegetação nativa na região;

 

·     características técnico - econômicas, preço da área em estudo, custo das obras de adaptação do local, facilidade de acesso ao local, distância a regiões de produção de resíduos sólidos a serem atendidas, volume de resíduo sólido presumível de dispor no local ou período de utilização, existência de aeródromos no entorno da área, legislação urbanística na região e de uso do solo;

 

·     características sócio - políticas, população atual no entorno da área em estudo (poder aquisitivo, quantidade, oferta de trabalho, etc), distância da população à região de interesse, indústrias na região (qualidade e quantidade de lixo produzido), possibilidade de instalação de indústria de reciclagem e de aproveitamento de material reciclado na região, fatores políticos propriamente ditos.

 

 

 

 

4. - SISTEMÁTICA DE AVALIAÇÃO

 

A sistemática proposta consiste em, relativamente, a cada uma das funções consideradas "relevantes", estabelecer uma classificação seqüencial do respectivo desempenho parcial "di" entre os diferentes locais do universo em análise.

 

Para cada "função relevante" se estabelece ainda um parâmetro "fi" (importância relativa de cada função). Este, em conjunto com a classificação individual "di" antes referida, ser  parte integrante da formulação do Desempenho Global "D’" (Ver item 5).

 

A classificação "di" dos locais, relativamente ao desempenho de cada um, para uma mesma função "i", deve ser efetuada, tanto quanto possível, com base em resultados quantificáveis seja por via laboratorial, seja por ensaios in situ ou ainda por dados de bibliografia especializada.

Não existe pois a necessidade fatal de múltiplos e exaustivos ensaios para todos os casos. Muito freqüentemente se dispõe de dados bibliográficos ou de resultados de ensaios anteriores, em corpos de prova semelhantes, que podem apoiar enormemente no  estabelecimento  da hierarquização procurada.

 

Em alguns casos, dado o custo final do projeto, é importante ter acesso a um grupo competente e idôneo de especialistas, para com relação a algumas das funções poder obter uma hierarquização adequada. Eventualmente, duas regiões com desempenho muito próximo relativamente a determinada função, poderão carecer de um estudo ou ensaio mais trabalhoso. Tal exigência, ou utilidade pragmática irá depender  também do coeficiente de interesse (parâmetro "fi") que tal função apresente para a finalidade específica do local.

 

Logo, a quantificação numérica do "desempenho" de dado local dentro de um universo preestabelecido deveria basear-se, em princípio, nos seguintes dados:

 

- Definição das "funções relevantes" a serem  consideradas na análise.

- Definição da importância relativa de tais "funções" (parâmetros) " fi".

- Projeto detalhado da concepção do sistema, com todas as possíveis avaliações quantitativas e caracterização dos materiais.

- Definição pormenorizada dos métodos de execução e dos respectivos controles de qualidade.

- Prazo e seqüência da execução.

- Preço final eventualmente, percentuais de custo da tonelada transportada de resíduo sólido disposto.

- Quantificação do desempenho "di" relativamente a cada função.

 

Propõe-se que os parâmetros de importância ou preponderância de cada função (parâmetros "fi") sejam estabelecidos com a ajuda de uma "matriz de comparação". Tais parâmetros, relativamente às "funções de uso" consideradas relevantes, podem ser, e convém que sejam, estabelecidos sob a ótica do "valor final do resíduo sólido disposto".

 

Consoante a gama de funções considerada e correspondentes parâmetros "fi" variar naturalmente o número representativo do Desempenho Global "D’" de um dado local, relativamente aos outros de um mesmo universo. Temos pois que distinguir dois níveis diferentes de desempenho. Primeiro há que determinar o desempenho "di" de cada local em análise, relativamente a cada uma das funções relevantes. Depois, numa segunda etapa, aplicando a fórmula apresentada a seguir, se calcula o Desempenho Global "D’" do local.

 

 

 

5 - FORMULAÇÃO

 

A fórmula adotada para representar o "Desempenho Global" de um sistema :

                   i=p

             D'=S  P difi                      (5)

                    i=1

 

D'- Desempenho Global do Local.

P - Produtório

di - Desempenho do local em causa,  relativamente à função i.

fi - Parâmetro, relativo à função i, definidor da respectiva importância relativa, normalizado entre 0 e 1.

i - Índice genérico da função em causa.

p - Número de funções relevantes.

D - Desempenho Global Normalizado do local, resultante de normalizar, no intervalo 0 a 100, os valores D' do universo de locais considerado.

 

 

6 - SEQÜÊNCIA DE CÁLCULO

 

- 6.1 - Importância relativa das funções - parâmetros -"fi"

 

Para estabelecimento dos parâmetros de importância relativa das diversas "funções relevantes" se usa uma Matriz de Comparação, a qual é  uma matriz quadrada, de diagonal principal unitária. Cada linha e cada coluna com um mesmo índice "i", corresponde a uma mesma função "i".

 

O preenchimento da matriz resulta da comparação, em cada linha, do "interesse" da função correspondente a essa linha com o de cada uma das restantes funções. Sugere-se uma escala de pontuação de 1 a 9 (Vide JUANG et alli, 1992). As duas funções de importância idêntica corresponder o valor 1. A uma função infinitamente mais importante que a outra corresponderia o valor 9 (máximo).

 

Os valores abaixo da diagonal principal resultam inversos dos correspondentes simétricos em relação à diagonal principal.

 

Exemplificando para um caso de funcionamento de um aterro:

 

Consideremos as seguintes funções:

 

A - Segurança estrutural do aterro

B - Segurança dos drenos de gás

C - Colmatação do sistema de drenagem à água

D - Conforto visual estético

E - Segurança quanto a populações vizinhas e catadores

 

Como já referido, a importância relativa de cada função depende das condições específicas a que a construção em causa deva satisfazer.

 

Os valores adiante arbitrados, com fins puramente didáticos, deverão pois variar consoante tais condições.

 

Montemos então a matriz:

 

 

 

A

B

C

D

E

Segurança estrutural do aterro

A

1

6

2

5

6

Segurança dos drenos de gás

B

1/6

1

1/4

1/3

1

Colmatação do sistema de drenagem à água

C

1/2

4

1

4

5

Conforto visual estético

D

1/5

3

1/4

1

3

Segurança quanto a populações vizinhas e catadores

E

1/6

1

1/5

1/3

1

 

Estabelecida a matriz, usa-se o seguinte método de cálculo:

a) Somam-se os valores de cada coluna.

b) Calculam-se os inversos das referidas somas.

c) Obtém-se os parâmetros "fi"- procurado normalizando estes resultados no intervalo 0 a 1.

 

Exemplo:

 

 

A

B

C

D

E

A

1

6

2

5

6

B

1/6

1

1/4

1/3

1

C

1/2

4

1

4

5

D

1/5

3

1/4

1

3

E

1/6

1

1/5

1/3

1

S

2,033

15

3,70

10,66

16

Inversos

,492

,067

,270

,094

,063

" fI "

1,00

,136

,549

,191

,120

 

O próximo passo será  a determinação do desempenho parcial "di" de cada aterro, relativamente a cada uma das "funções relevantes". Consistirá em hierarquizar os aterros segundo o grau de desempenho obtido relativamente a cada uma das funções em causa. Note-se que, para algumas funções mais complexas, tal desempenho exige uma avaliação judiciosa e se conveniente com metodologia específica.

 

Por exemplo a "Segurança estrutural do aterro" pode ser assimilada a uma cadeia cujos elos são as diversas partes do aterro. A segurança da cadeia corresponder à do elo menos seguro.

 

Se considerarmos como "elos", por exemplo a fundação do aterro, a estabilidade do solo natural, a perda de resistência do lixo com o tempo, devem ser verificados para a determinação de qual apresenta o menor coeficiente de segurança. Esse será o coeficiente de segurança estrutural do respectivo sistema.

 

O “Conforto visual estético” depende de numerosos fatores extremamente subjetivos, mas que devem ser considerados em função da localização do aterro e uma futura adaptação do mesmo quando fechado como parque ou local de recreio a populações vizinhas.

 

Quando uma avaliação quantitativa for totalmente indisponível, o recurso a "matrizes de comparação" elaboradas por especialistas no assunto, pode conduzir a uma "quantificação" aceitável. Isto apesar de tal avaliação ser baseada em dados originariamente qualitativos e subjetivos (metodologia análoga à adotada para o cálculo dos parâmetros "fi").

 

Para hierarquização dos diversos sistemas relativamente a uma função (determinação dos valores -"di") se adota novamente a metodologia de "matrizes de comparação", fazendo-se o preenchimento das mesmas a partir dos dados numéricos correspondentes a cada local, representativos dos respectivos desempenhos parciais absolutos dos aterros projetados.

 

6.3 - Desempenho Global Normalizado -D-

 

Uma vez definidos os valores "fi" e "di", aplica-se a formulação atrás referida e se determinam os valores indicativos do Desempenho Global Normalizado -"D"- de cada local, no universo considerado.

 

7 - CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

No caso de aterro sanitário, entre as funções relevantes, seria de interesse fundamental, se conhecidos, considerar o preço por tonelada, volume de lixo estimado a ser disposto no local e vida útil previsível para o mesmo.

 

No caso de interesses com conotação política ou empresarial (prazos, qualificação e disponibilidade de mão-de-obra, disponibilidade e materiais, etc.), outras funções relevantes deveriam ser consideradas. Seria ainda viável, caso interessasse, dependendo da finalidade da "avaliação", proceder a avaliações separadas do "Desempenho Funcional" (de interesse do usuário), do "Desempenho Sóciopolítico" (de interesse do empreendedor), e do "Desempenho Econômico" (de interesse do empreiteiro).

 

De acordo com o interesse específico de cada avaliação, poderiam se definir as correspondentes "funções" ou "grupos de funções". Assim, o preço, o volume, a vida útil, quantidade de material de empréstimo, os desempenhos parciais (funções de utilização), etc., poderiam ser considerados cada um como uma "função". Definir-se-iam os correspondentes valores relativos (parâmetros -"fi"-) mediante uma "matriz de comparação". Em seguida, utilizando a equação (5) determinar-se-ia o Desempenho Global Final.

 

Conhecidos os preços globais -"C"- de cada sistema, determinavam-se os respectivos "valores" "V" e obtinha-se a correspondente classificação relativa. A presente proposta é uma combinação da Análise do Valor desenvolvida a partir do final da 2ª Guerra Mundial (Miles, 1947) e a lógica Fuzzy (Zadeh, 1965). A combinação das duas nos parece extremamente promissora para a escolha de locais de disposição de resíduos sólidos e os procedimentos ora propostos poderão trazer grande economia e frutos administrativos às prefeituras que a adotarem, transformando decisões político/subjetivas em decisões técnicas, econômicas, políticas e ambientais e bem objetivas.

 

As matrizes de impacto são necessárias, sendo exigidas em todos os estudos de impacto ambiental. Atualmente contudo, pelo menos a nível de Brasil, não se exige a elaboração de matrizes muito complexas. No Rio de Janeiro, as matrizes exigidas pela FEEMA devem indicar apenas qualitativamente os tipos de impacto devidos a cada fator. Frise-se ainda que as matrizes apresentadas em EIA’s consideram somente os impactos decorrentes da implantação/operação de um dado empreendimento, e não de diversos empreendimentos, como seria o caso de seleção de áreas para aterro. Importante observar ainda que devem ser especificadas certas características do impacto como:

·     reversível ou irreversível,

·     direto ou indireto,

·     temporário ou permanente,

·     negativo ou positivo,

·     relevante  ou desprezível,

com alguma quantificação, se possível.

 

AGRADECIMENTOS

 

Os autores agradecem ao Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) pelo apoio constante, às alunas Gisele Sant'Anna de Lima e Maria Eduarda Pessoa e ao Eng° Osmar de Oliveira Dias Filho.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

DENNISON, G., FEHILY, B., WHITE, B. & BLAIR, C. (1997). Landfill Planing: a tale to two sites. Sardinia'97, 6 th International Congress, Italy.

FUKUMOTO, T. & FUNEICHI, T. (1997). Methodology for Planning Landfill Sites in Japan, Sardinia'97, 6 th International Congress, Italy.

JUANG, C.H., HUANG, X.H. & SCHIFF, S.D (1992) Determination of Weights of Criteria for Decision Making by the Fuzzy Eigenvector Method, Civil Eng. Syst. Vol. 9, pp. 1-16.

MILES, L. D. (1947) Value Analysis, General Eletric Company.

VALENTINI, E. (1997) Environmental Impact Assessment in the Site Selection Process: a case study, Sardinia'97, 6 th International Congress, Italy.

ZADEH, L.A. (1965) Fuzzy Sets, Information and Control, 8, 338 - 353.

ZADEH, L.A. (1978). Fuzzy sets as a basis for a theory of possibility, Fuzzy Sets and Systems, 1, 3-78.

 

ENDEREÇO PARA CORRESPONDÊNCIA

 

Prof. Claudio Fernando Mahler

COPPE/UFRJ - Programa de Engenharia Civil

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