Peneirando o lixo em busca de um aterro perfeito.

Robert Ham está criando o "aterro sanitário do futuro".

19 de fevereiro de 1998

Um professor da Universidade de Wisconsin em Madison está escavando o lixo para descobrir o que acontece nos aterros. Robert Ham acredita que aterros bem projetados podem ser ferramentas de reciclagem e não apenas buracos que recebem lixo durante anos.

Como um dos maiores especialistas em aterros do país, o emérito professor de engenharia civil passou sua carreira estudando as coisas de que nos livramos e nos esquecemos. O estudo mais recente de Ham pode ser a indicação mais clara que temos em relação ao que acontece com os materiais depositados em aterros.

Saber como e que materiais degradam é o primeiro passo para transformar os aterros em máquinas de consumir lixo mais desenvolvidas e de conseguir uma fonte de energia a partir do metano.

No começo desse estudo de seis anos, a equipe de pesquisadores de Ham encheu sacos de tela com lixo, de fraldas sujas a restos de feijão, e os enterrou a três metros de profundidade em três diferentes aterros do país. O primeiro saco foi desenterrado após um ano, o segundo, após dois anos e meio e o terceiro, após seis anos. Seu conteúdo foi dividido, desidratado, pesado e submetido a testes químicos.

O que Ham e seus alunos Timothy Baldwin e Jeffrey Stinson descobriram pode surpreender muita gente: grande parte do nosso lixo, em condições ideais, desaparece totalmente.

Esse estudo foi uma inversão da maioria das pesquisas de aterros, que simplesmente coletam materiais já enterrados. Ham diz que esse estudo lhes proporcionou informações controladas sobre onze categorias típicas de lixo em aterros na Flórida, Pennsylvania e Madison.

"Acompanhando o que acontece com os materiais que descartamos, podemos saber exatamente qual era o peso e a composição do lixo quando ele foi para o aterro", diz Ham. O estudo mostrou que os aterros não precisam ser "tumbas" que mantêm o lixo inalterado através das décadas.

Ham descobriu que alimentos se decompõem com relativa rapidez. Após seis anos no aterro de Madison, restos de feijão, amendoim e sementes de girassol perderam metade de seu peso seco. Restos de massa quase desapareceram por completo. Na Flórida, mais de 75% de todas as amostras de alimento estavam decompostos depois de apenas dois anos.

Papel jornal foi o único material que pouco sofreu alterações: apenas 17,4% estavam decompostos depois de dois anos na Flórida, e 8,5% depois de seis anos em Madison. O estudo das fraldas, consideradas por muitos um símbolo dos problemas dos aterros sanitários, produziu resultados desencontrados. Quase todas as fraldas do mercado contêm aditivos como gel absorvente ou plástico impermeável, que tornam a decomposição mais demorada. A decomposição das fraldas enterradas variava entre 12% e 56% após seis anos no aterro de Madison. Na Flórida, porém, a taxa de decomposição das mesmas marcas de fraldas estava entre 65% e 75% depois de dois anos.

Qual seria a diferença? Durante o período estudado, o aterro da Flórida não tinha uma cobertura de argila, que separa os dejetos da ação dos elementos naturais. O governo federal obriga os aterros a terem coberturas, pois isso reduz o risco de contaminação da água. Por outro lado, as coberturas reduzem a umidade dos dejetos, que é fundamental para acelerar a degradação do lixo.

As coberturas de aterros realmente reduzem o risco de contaminação da água e de vazamentos, mas, ao mesmo tempo, garantem que o material depositado permanecerá ali por tempo indeterminado. Ham acredita numa melhor alternativa em termos ambientais que controla a contaminação da água e acelera a decomposição.

Charles Pettigrew, cientista sênior da Procter & Gamble, co-patrocinadora dos seis anos de estudo de Ham, diz que as informações que ele revelou sobre as taxas de decomposição confirmam muito do que se descobriu em laboratórios nos últimos anos sobre materiais depositados em aterros. Pettigrew disse que a Procter & Gamble financia estudos sobre resíduos sólidos há anos, inclusive pesquisas sobre alternativas de compostagem em larga escala. Mas, até o presente momento, as municipalidades se mostram relutantes ao adotarem outros métodos, pois os aterros continuam sendo a solução mais barata.

Usando as informações obtidas com esse estudo, Ham deu início ao projeto dos "aterros do futuro". Em parceria com uma companhia de destinação final de resíduos sólidos de Wisconsin e com a Montgomery Wattson, uma firma de engenharia com sede em Madison, Ham está planejando uma demonstração que promoverá a degradação dos resíduos sólidos e a produção de gás metano que será usado como fonte de energia. "Alguns aterros americanos estão produzindo energia o bastante para iluminar 10 mil domicílios", diz Ham. Segundo ele, esse processo poderá fazer com que a maioria dos dejetos se decomponha e desapareça rapidamente enquanto o resto será depositado com segurança em um aterro coberto.

Ham diz que os EUA deveriam se empenhar mais na eliminação dos problemas de longo prazo causados pelo lixo: "Já demonstramos que podemos acelerar o processo, reduzindo o tempo da decomposição, e não deixar o problema para que nossos netos resolvam".

Para mais informações, contatar Robert Ham, University of Winsconsin – (608) 238-4527.