Será viável resgatar os bilhões contidos no lixo?

 

Na edição de 4 de janeiro, no caderno Cidades de O Estado de São Paulo foi abordado o tema da reciclagem do lixo. Uma tese de doutorado na USP, a cargo de um economista, pretende abordar de cátedra um assunto aparentemente simples, mas que na prática se revela difícil de ser colocado em um contexto específico, dada a complexidade e a variedade do tema. Falar em bilhões perdidos no lixo nada mais é do que uma forma imediatista de chamar a atenção e conquistar espaço nos meios de divulgação. Revela também total desconhecimento da realidade brasileira e mesmo mundial.

Determinado partido político, ao conseguir o poder em diversas prefeituras no Brasil, estabeleceu, por seu órgão central de planejamento, uma política de coleta seletiva de lixo para todas elas, independente de seu tamanho e localização. A conseqüência foi um aumento geométrico dos custos de coleta e tratamento, amortizado apenas em ínfima parte pela venda dos materiais selecionados. Prefeituras, como as de São Paulo e Angra dos Reis, chegaram a ter custos da ordem de R$ 475,00 e R$ 900,00 respectivamente, por tonelada de lixo selecionado, o que vem inviabilizando a continuidade do processo.

Na Alemanha, criou-se um empreendimento de reciclagem, chamado Sistema Duales Alemanha ( DAS ), empresa particular sem fins lucrativos, para cumprir as novas leis ambientais que, inclusive, tornaram responsáveis os produtores pela recuperação e reciclagem de todos os produtos manufaturados e os materiais de embalagem. O que não se esperava é que 95% das residências participassem do programa, gerando 400.000 toneladas de lixo reciclável anualmente, contra uma capacidade industrial de reciclagem de menos de 125.000 ton/ano. O excesso de material reciclável, especialmente plásticos, está se amontoando em armazéns, campos, pastagens e hangares abandonados nos aeroportos de Hamburgo e Augsburgo. Chegou a tal ponto que a Alemanha começou a embarcar o reciclável para o exterior, chegando até à Indonésia. O curioso é que nesse país o plástico importado estava sendo comercializado por um preço inferior ao cobrado pelos catadores locais, o que obrigou o Governo a mandar de volta os navios seguintes.

A reciclagem de materiais ainda é considerada uma atividade cíclica, devido à pequena capacidade de absorção pela indústrias, à necessidade de investimento de capitais e o risco mercadológico.

A solução mais apropriada é que as municipalidades deleguem a particulares a atividade de caráter comercial, através do incentivo à criação e manutenção de cooperativas de catadores, limitando-se a supervisão e controle, especialmente quanto à degradação do meio ambiente e quanto ao aspecto social, garantindo um padrão mínimo de sobrevivência ao catadores. Não deve o poder público se transformar em comerciante de recicláveis e matérias-primas secundárias, mas concentrar-se em resolver os problemas sanitários, de saúde pública e de cunho social decorrentes do acondicionamento, coleta, transporte e destino final dos resíduos sólidos urbanos.

Os resultados obtidos nos campos social, educacional e ambiental são os aspectos positivos mais atraentes em qualquer programa de reciclagem, considerando-se a venda de produtos apenas uma forma de se obter pequena mitigação dos custos globais. É, portanto, totalmente inadequado, diríamos mesmo covardia, induzir prefeituras de pequeno e médio porte a obter lucros ilusórios com a reciclagem, acenando-lhes com os supostos bilhões jogados no lixo.

Parece-nos que a Douta Comissão que analisou a tese citada não a teria aprovado se entre seus membros existisse alguém do ramo de Limpeza Pública, e não apenas luminares das Ciências Contábeis.

 

Eng. Cineas Feijó Valente

Arq. Renato Mendonça