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27/05/2008 - 17h34

Transformar plástico em vilão ambiental não faz sentido, dizem cientistas

Unidades básicas do plástico industrial lembram substâncias típicas dos seres vivos.
Bastaria aprender como substituir essas unidades para conseguir plástico 'do bem'.
Natalie Angier Do 'New York Times' entre em contato
ALTERA O
TAMANHO DA LETRA
Foto: Serge Bloch/NYT
Serge Bloch/NYT
O plástico é um vilão tão grande assim? (Foto: Serge Bloch/NYT)
Condenar ou tolerar categoricamente o plástico não faz muito sentido. A cadeia de supermercados Whole Foods, com lojas nos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Canadá, vai deixar de oferecer a seus clientes a opção da sacola de plástico. Considerando que as sacolinhas “levam mais de mil anos para se decompor” e que “somente nos Estados Unidos, mais de 100 bilhões de sacolas de plástico são descartadas por ano”, a empresa afirmou que não vai, em sã consciência, contribuir para a crise.


Meus parabéns. Mas, agora, quero saber: com o que devo forrar minha lata de lixo? Sempre uso sacolas de plástico de supermercado, e as do Whole Foods eram, de longe, uma das minhas favoritas –- espaçosas e flexíveis o suficiente para suportar uma grande quantidade de lixo sem risco de se romper, o que é sempre vantajoso quando se joga fora, por exemplo, pele de peixe ou sujeira de gato. Se eu tiver que comprar sacolas plásticas aos montes, como isso vai ser melhor para o meio ambiente?

 

E esqueça as sacolas de papel para esse objetivo. Meu irmão mais velho me lembrou recentemente que, quando éramos mais jovens, forrávamos nossa lata de lixo com papel de jornal, uma solução nada satisfatória – a não ser para as baratas.

 

 Revolução

Há um século, o químico belga Leo Hendrik Baekland liderou uma revolução dos materiais com sua invenção da baquelite, uma resina sintética que era moldada em forma de estojos de rádio, lâmpadas, botões, vestidos e outras coisas. Ficamos fanáticos por plástico desde então. Adoramos o plástico pela sua versatilidade, leveza, força e preço acessível. Condenamos o plástico por ser produto barato do petróleo e tememos nunca nos livrarmos dele.


Apesar disso, cientistas apontam que os tipos de substâncias agrupadas sob o rótulo de “plástico” são tão amplas e diversos que condená-lo ou tolerá-lo categoricamente não faz nenhum sentido. Além disso, esse campo está evoluindo rapidamente, à medida que pesquisadores se esforçam para obter plástico de fontes renováveis, como cana-de-açúcar e grama repicada em lugar de combustível fóssil, e fazer com que suas criações se decomponham quando descartadas no meio ambiente.

 

“Podemos fazer muitas coisas interessantes, mas é preciso empreender mais pesquisas”, disse James A. Moore, professor de química do Rensselaer Polytechnic Institute. A grande sacada para chegarmos a uma fase verde para a era do plástico, ele afirma, “é aceitarmos que isso vai custar caro”.


Olhando para o meu escritório, vejo o quanto seria difícil viver sem o plástico. Estou digitando em um teclado feito parcialmente de cloreto de polivinilo moldado, que também serve como matéria para o item de plástico mais elementar, o cartão de crédito. Alguns componentes dos dois telefones pretos na minha mesa são feitos de acrilonitrila-butadieno-estireno moldado por injeção, um material com força e rigidez suficientes para resistir à quebra em caso de quebra, e que por isso é usado em capacetes de moto e malas. Meus brincos são feitos de Lucite, um acrílico leve bastante popular entre fabricantes de jóia hoje em dia.


Meu macaquinho de pelúcia na minha estante de livros me observa através de seus olhos pequenos e brilhantes – provavelmente também de acrílico – e seu pêlo falso foi tecido com fibras de poliéster. Minha mesa e minha estante de livros são feitas de tábua de madeira compactada, uma combinação de aparas de madeira e uma resina plástica. Forrando a minha lixeira está, claro, uma sacola de plástico de supermercado e, como a maioria das sacolas de plástico, ela é feita de polietileno, “o plástico de maior volume”, diz Richard A. Gross, professor de química e biologia da Polytechnic University no Brooklyn. Na verdade, tudo o que vejo chega para mim através do plástico, já que seria cega sem a mistura de plásticos da qual são feitas minhas lentes de contato rígidas permeáveis a gás.

 

 Polímeros sintéticos

Tudo isso e as centenas de outros plásticos que recheiam nossos colchões, dão elasticidade aos nossos jeans confortáveis, suturam nossos cortes, obturam nossas cavidades dentais, encapsulam nossas pílulas, substituem nossos membros amputados, iluminam nossos carros e jatinhos e entrelaçam nossos coletes salva-vidas, têm em comum o fato de serem um polímero sintético.

 

O termo “polímero” se refere a qualquer cadeia molecular longa composta de unidades químicas menores, ou monômeros. Os químicos freqüentemente comparam essas cadeias às continhas de uma pulseira ou, quando vão a um jantar elegante, às pérolas de um lindo colar.


A vida está cheia de polímeros. DNA, proteínas e amidos são moléculas poliméricas, todos são concatenações de moléculas menores. Plásticos são nada mais que polímeros nos quais os humanos, e não a natureza, colocam as continhas. Mas ainda somos joalheiros muito rudimentares. Os polímeros sintéticos no plástico de uma sacola de lixo, por exemplo, são uma fila monótona de um único tipo de bugiganga química, o etileno, enquanto que os polímeros das proteínas em uma pele de peixe são arranjos complexos de até 20 aminoácidos distintos, os monômeros dos quais as proteínas são feitas.


E tem mais, enquanto a natureza sabe como fazer milhares de diferentes polímeros e pode fazê-los com o mesmo comprimento e forma a cada vez, os químicos ainda têm que treinar esse controle refinado sobre sua linha de produção. “A forma como um polímero é tipicamente feito é: você joga os monômeros em uma grande panela e os deixa reagir, em lugar de fabricá-los peça a peça como o corpo humano faz”, disse Elliot P. Douglas, professor associado de ciência de materiais e engenharia da Universidade da Flórida. “Quando fazemos uma mistura, ela tem diferentes comprimentos”.

 

 Corpos uniformes

Mas nossos corpos e nosso plástico são tudo menos monstros contrários uns ao outros. Os polímeros em ambos os casos tendem a ter muitos átomos de carbono, tendo o carbono uma estrutura rapidamente interligável que a torna um componente ideal da vida – das vidas que vivemos hoje e das vidas arcaicas espremidas e sublimadas que constituem os combustíveis fósseis. O carbono também é um elemento constituinte ideal para monômeros para colocar na panela e obter como resultado um produto com propriedades úteis, como elasticidade, aderência, maleabilidade e desprezo pela corrente elétrica.


A razão pela qual o petróleo serve tantas vezes como base para a produção de plástico é que ele oferece uma fonte extremamente concentrada de carbono. Mas carbono é carbono e, com a manipulação adequada, outras fontes naturais convenientes, como grama repicada, dão conta do recado. Adicione cloro à sua cadeia de carbono para obter dureza e resistência a altas temperaturas. Pregue pequenos grupos metila à cadeia de carbono para durabilidade, solidez e resistência a substâncias químicas. Retire sua mistura derretida através de orifícios para formar tubos, mangueiras, canudinhos e fibras. Injete a mistura em moldes em forma de Barbie, Ken ou um pente. Infle como um balão e você terá uma nova sacola. Quando terminar, me entregue: vou fazer bom uso dela.

 

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