REVISTA BIO - ABES

AMBIENTALISTA SIM, MAS ...

Fernando Botafogo (*)

Ambientalista sim, mas ...com inteligência e equilíbrio. Em nosso texto publicado na BIO anterior, mostramos que o homem começou a degradar o ambiente em que vive, em progressiva aceleração, há apenas 10.000 anos. E somente em nossos dias o Homem começa a se preocupar com a conservação ambiental. Na verdade muitos deles mais falando, interessados em aparecer, do que tomando, na realidade, alguma providência útil.

Há poucos dias, trabalhando no Panamá, tive oportunidade de conhecer, de perto, aquela magnifica obra de engenharia, denominada como Canal de Panamá. Construída nos primórdios do atual século, este canal liga o oceano Atlântico ao oceano Pacífico, que se situa em um nível 14 m mais baixo. Permite que cerca de um navio a cada 40 minutos, do dia e da noite, navegue através de suas águas, proporcionando uma enorme economia de combustível e incrementando negócios geradores de uma grande quantidade de empregos, em todo o mundo. A cada abertura de suas eclusas, cerca de 197 milhões de litros de água são lançados e tomados da baía do Panamá.

Fiquei então imaginando: será que este canal teria sido construído se, àquela época já existissem os ambientalistas exageradamente verdes, puristas e radicais? Não haveriam eles de alegar que seria um crime ambiental ligar de forma tão artificial dois diferentes oceanos? Não diriam eles que as espécies da flora e fauna marinha dos dois oceanos  iriam se misturar, com grande prejuízo para as comunidades específicas a cada oceano? Não chegariam os mais radicais a dizer que o nível do oceano Atlântico iria baixar a níveis insuportáveis à preservação dos ecossistemas costeiros?

Com esses pensamentos na cabeça, voltei ao nosso Rio de Janeiro, em um domingo ensolarado, em que uma grande quantidade de pessoas estava a se divertir na área do Aterro do Flamengo, nesse dia fechado ao tráfego, para o lazer dos Cariocas. Compondo essa magnífica paisagem, lá estavam o Pão de Açúcar, apresentando o contínuo balé de seus bondinhos e o Corcovado, com a imagem do Cristo Redentor abençoando a felicidade de todos, nativos e turistas. Será que, para aterrar parte da baía de Guanabara, teria sido possível desmontar hidraulicamente a colina histórica do Morro de Santo Antônio, do qual só restou a parte que sustenta o convento de mesmo nome, sítio de peregrinação anual de moças (e outras tantas já não tão moças) casadoiras, para construir este aterro?.

E me voltaram os pensamentos. Será que o maciço do Corcovado teria recebido a imagem do Cristo Redentor, símbolo mundial do Rio, se há aquela época já existissem os ambientalistas desvairados?  O que teriam dito de se construir duas estradas, uma rodoviária e outra ferroviária, por dentro da Mata Atlântica, desde a área urbana até o cume do Corcovado? Como teriam criticado as potentes luminárias que foram instaladas para proporcionar uma iluminação feérica da imagem, vista em toda a cidade do Rio de Janeiro, iluminação esta que mata milhões de insetos, a cada noite, enchendo conteneres que são retirados, a cada manhã, pelo pessoal da limpeza.

Será que a praia de Copacabana, hoje palco de tantos eventos populares, teria sido engordada, substituindo aquela nesga de areia que logo ao final das manhãs já se encontrava sombreada pelos altos edifícios, á época tão próximos de suas areias?

Como se teria tido oportunidade de implantar o grande interceptor oceânico da Zona Sul, que se deslocando ao longo do Aterro do Flamengo e das praias de Botafogo e de Copacabana,  engordadas, viria a eliminar os inúmeros lançamentos de esgotos às águas da baía de Guanabara, conduzindo-os, então, até o emissário submarino de Ipanema?

E como estaria hoje o Rio, sem essas obras? Será que, hoje, os veículos conseguiriam se mover se, ao longo dessas obras não houvessem sido construídas as novas vias expressas, ligando o Centro da cidade aos diversos bairros da Zona Sul e à Barra da Tijuca?

Embora a consciência ecológica já resulte, hoje, em um posicionamento mais racional, por parte de muitos ambientalistas, ainda restam resquícios de radicalismos em muitos de nossos colegas. Haja visto, por exemplo, que a Constituição do Estado do Rio de Janeiro legisla sobre matéria eminentemente técnica, quando determina que nenhum efluente sanitário ou industrial possa ser lançado a um corpo receptor sem que tenha sido submetido a um tratamento primário É uma intromissão do legislador em nossa responsabilidade técnica, como projetistas. Seria, com um pouco de exagero, como se o legislador determinasse: que a partir da presente data, nenhum pilar de edificações pudesse ter uma seção menor do que 2 m2,  por exemplo. Esta determinação legal constitui um absurdo quando se sabe que o grau de tratamento a ser dado a um efluente irá depender, diretamente, de suas características e da capacidade de autodepuração do corpo receptor a ser utilizado. O saneamento da barra da Tijuca representa um trágico exemplo resultante desta anomalia jurídica. A CEDAE tendo disponibilizado financiamento para implantação de um emissário submarino para esta região, em 1975, até a presente data não conseguiu construi-lo, por oposição de uma minoria de ambientalistas mal informados. Querem que seja construída uma estação de tratamento, a nível primário, o que resultará, além de outros incômodos aos moradores e usuários de uma área extremamente ocupada, na geração de lodos que deverão ser transportados por caminhões, atravessando toda a cidade, para lançar essas concentrações de poluentes em um aterro sanitário, situado sobre um manguezal, no interior da baía da Guanabara. Enquanto isso, a explosiva ocupação da Barra da Tijuca, nestes 24 anos de discussões estéreis, encarregou-se de matar integralmente o complexo lagunar da região, ecossistemas extremamente frágeis que tem sua preservação assegurada por Lei.

Ambientalistas sim, todos concordamos e nos esforçamos para difundir essa necessidade vital para a humanidade, mas ... com a inteligência aberta e o equilíbrio mantido, aliás, regras básicas para sobrevivência do bicho Homem, na Terra.

 

(*) Diretor de Meio Ambiente da Multiservice