COLHENDO LIÇÕES DE EXPOENTES DA

LIMPEZA URBANA

Engo. Antonio Fernando Magalhães

Assessor da Diretoria de Serviços da Zona Oeste

Comlurb – Cia. Municipal de Limpeza Urbana

 

 

1.   Expoentes da Administração de Serviços de Limpeza Urbana

 
 Em meados da década de 90, a revista World Wastes efetuou uma pesquisa para determinar qual seria a cidade mais limpa do mundo. Os especialistas consultados elegeram como tais as cidades de Sydney e Melbourney. Considerou-se como motivo principal desta excelência na limpeza urbana  a “boa administração dos serviços”, já que equipamentos e métodos de limpeza semelhantes existiam também em muitas outras cidades do mundo.

Não tivemos condições de averiguar quem seriam os responsáveis pela limpeza urbana nestas cidades, mas podemos encontrar boas lições também em outros locais, inclusive em nossa própria cidade. Este trabalho se propõe a analisar os pontos fortes de alguns expoentes da administração de serviços de limpeza urbana que conseguiram, cada um à sua época, resultados realmente notáveis. Convidamos o leitor a refletir e tirar suas próprias conclusões.

 2.    A eficácia da administração:

 ALEIXO GARY - 1876/1891

 Francês radicado no Rio de Janeiro desde 1859, Aleixo Gary foi contratado para administrar a limpeza urbana da cidade em 10 de outubro de 1876, pelo Ministério dos Negócios do Império. Até esta data, muitos empresários já haviam fracassado na tarefa de resolver os graves problemas de limpeza urbana do Rio de Janeiro.

O contrato estabelecia que deveriam ser utilizadas carroças para lixo,  completamente fechadas,  do sistema Sohy, aperfeiçoadas pelo próprio Gary. A concessão teria a duração de 10 anos, mas acabou se estendendo até 1891.

Com Gary, a cidade experimentaria melhorias no serviço de limpeza. Entretanto, a limpeza das praias, a concentração do lixo em depósitos à beira mar e o transporte em barcaças até a ilha de Sapucaia, na baía de Guanabara, eram realizados por outros empresários, o que inibia, na visão de Gary, uma melhora efetiva dos serviços. Embora não conseguisse monopolizar a limpeza urbana, Gary ficou como responsável pela limpeza dos logradouros da maior parte da cidade e pelo transporte do lixo até a Ilha da Sapucaia.

 A empresa de Gary foi extinta em 1891, mas ele mesmo  sugeriu a criação da Superintendência de Limpeza Pública e Particular, ligada ao governo municipal, permanecendo funcionário da mesma até 1912 (36 anos a serviço da limpeza pública do Rio de Janeiro).

 A atuação de Aleixo Gary foi tão marcante e eficaz que os empregados da limpeza passaram a ser chamados de “garis” , termo que permanece até os dias de hoje.

3.    A parceria com a polícia e o pioneirismo na  gestão integral dos resíduos:

CORONEL GEORGE WARING – 1895/1898

 No final do século 19, as ruas de Nova York eram tão sujas que hoje seria difícil imaginá-las. Milhões de moscas rodeavam pilhas de lixo domiciliar, fezes humanas, excrementos de animais e detritos de toda natureza.

 Em janeiro de 1895, no entanto, ocorreu um “milagre”: um militar reformado, o Coronel George E. Waring, foi nomeado Comissário de Limpeza de Nova York.

 Waring estabeleceu desde logo uma estreita parceria com seu colega e amigo, o eficientíssimo Comissário de Polícia de Nova York, Teddy Roosevelt (ele mesmo, o futuro Presidente dos Estados Unidos, do qual Franklin D. Roosevelt era primo). Juntos, combateram a corrupção e as sinecuras políticas da facção Democrática Tammany Hall e estabeleceram administrações profissionais e eficazes.

Roosevelt e sua polícia foram fundamentais para a implantação, com firmeza, de medidas coercitivas a favor da limpeza urbana. Como conseqüência, em apenas 2 anos, os cidadãos de Nova York ficaram orgulhosos  em afirmar que sua cidade havia se tornado uma das mais limpas do mundo.

O Coronel acabou com o lançamento de lixo no mar, adotou recipientes padronizados e coleta regular para o lixo e instituiu a reciclagem sistemática dos resíduos sólidos. As cinzas (provenientes de calefação) eram levadas a aterros, enquanto que os excrementos eram utilizados como fertilizantes. Equipes especiais coletavam somente materiais secos, que incluíam tecidos, papéis, madeiras e outros materiais recicláveis. As gorduras eram separadas e exportadas para a Europa para fabricação de sabão. O que não podia ser reciclado era queimado em incineradores municipais, dotados de caldeiras e geradores, que produziam eletricidade (a ponte de Williamsburg era iluminada com esta energia).

Waring procurou aumentar o moral e a auto-estima de seus colaboradores, instituindo novos uniformes, totalmente brancos, não demorando a surgir o apelido lisonjeiro de “White Wings” (no Rio de Janeiro, o Prefeito Negrão de Lima tentou ressuscitar uma variante da idéia, criando os “homens de branco”).

George Waring e Teddy Roosevelt criaram, em conjunto, a Escola de Limpeza Urbana e a Academia de Polícia, passando a tratar estas atividades como verdadeiras profissões.

Em 1891, quando Waring liderou a primeira Parada do Departamento de Limpeza, comentou-se que os expectadores ficaram extasiados pela visão de milhares de White Wings,  marchando garbosos pela Quinta Avenida.

Após apenas 3 anos de gestão, Waring foi transferido para outras funções (morreu em Cuba, combatendo epidemia de febre amarela), mas a partir de sua administração, todos os cidadãos de Nova York perceberam que uma cidade mais limpa e saudável era de fato possível.

4.    A força da autoridade:

 LEE KUAN YEW – 1959/1990

Educado na Inglaterra, Lee Kuan Yew conduziu Singapura à independência e foi Primeiro Ministro de 1959 a 1990. Governou com grande autoridade e seu zelo pela lei e ordem era lendário. Pode ser considerado o maior responsável pela transformação de seu pequeno país (praticamente apenas a cidade de Singapura), dos mais sujos do mundo, em um dos mais limpos.

Disse ele, em outubro de 1968: “Construímos e progredimos, mas não há marca de sucesso mais significativa do que atingir nossa posição como a cidade mais limpa e verde do sul da Ásia”.

As péssimas condições de limpeza de Singapura eram devidas ao lançamento indiscriminado de detritos nas ruas, à irregularidade da coleta do lixo, ao destino inadequado dos resíduos e à disposição descuidada de lixo e esgotos por cerca de 24.000 “camelôs” que então ocupavam as ruas.

Um ambiente limpo em Singapura era essencial, em função da alta densidade demográfica, de freqüentes inundações, de altas temperatura e umidade, fatores que forneciam condições ideais para rápido crescimento de bactérias, decomposição orgânica e proliferação de insetos causadores de doenças.

Em outubro 1968 foi lançada uma campanha de 1 mês de duração, denominada “Mantenha Singapura Limpa”. A população foi motivada a tratar Singapura como um grande lar e a comportar-se como co-proprietários do país. Este orgulho nacional (Singapura deixou de ser colônia da Inglaterra para tornar-se independente em 1959) seria manifestado quando cidadãos passaram a assumir a responsabilidade de manter limpos alguns locais públicos.

Uma campanha nacional foi deflagrada, com maciço apoio da mídia. Os jornais passaram a publicar artigos; rádio e televisão divulgaram diariamente jingles e documentários, dezenas de milhares de posters e banners foram afixados no comércio, nos escritórios, nas indústrias, nos centros comunitários e nos meios de transporte. Todos os selos, cartões postais e ingressos de cinema divulgaram a campanha. A população foi submetida a uma verdadeira “blitz” de publicidade.

A polícia e os inspetores de saúde passaram a patrulhar o país, avisando e incentivando a população para evitar sujar as ruas. Os cidadãos apanhados atirando lixo nas ruas foram avisados das penalidades que seriam aplicadas depois da campanha, que foi também estendida às escolas.

Foram estabelecidas competições para selecionar os dez centros comunitários, mercados, restaurantes, escolas e repartições públicas mais limpos. Aos vencedores do concurso foram concedidos prêmios e certificados. Uma pressão social foi também exercida quando os “dez mais sujos” foram nomeados e publicados. Foram divulgados, pelos jornais e televisão, filmes e fotografias dos estabelecimentos mais sujos, assim como de pessoas flagradas atirando lixo nas ruas

Após a campanha, foram então impostas multas de 500 dólares para quem sujasse as áreas públicas, sendo os nomes dos infratores publicados nos jornais. Os estudantes que fossem apanhados sujando os logradouros públicos eram denunciados aos diretores de escolas e encarregados de varrê-las. Ficou claro, no entanto, que a limpeza pública só seria conseguida se as pessoas estivessem de fato convencidas e motivadas.

Maior disciplina foi imposta aos empregados da limpeza urbana, especialmente quanto ao absenteísmo. Foi organizado um serviço para receber denúncias e queixas da população quanto à limpeza. Os “camelôs” foram removidos das ruas para locais apropriados, para ajudar a manter as ruas limpas.

Atualmente, Singapura é considerada realmente um dos locais mais limpos e verdes da Ásia. Recentemente foi muito divulgada a notícia de um norte americano condenado a chibatadas por “grafitar” um veículo estacionado. E não surtiram efeito os apelos para perdoar o infrator: o rapaz foi mesmo castigado!

1.    A força da motivação:

GASTÃO HENRIQUE SENGÉS – 1975/1979

A  Comlurb, Companhia Municipal de Limpeza Urbana do município do Rio de Janeiro, foi organizada e criada em 1975,  por Gastão Sengés e sua equipe.

Gastão criou novos uniformes, mais visíveis e seguros para os garis; nova programação visual para a frota de veículos e utensílios de limpeza e novo plano salarial, este calcado na Empresa de Saneamento da Guanabara (ESAG), representando aumento real de salários para os garis e demais empregados.

Promoveu ainda a criação de tarifa de limpeza urbana, cobrada em carnê de pagamentos exclusivo e, mais tarde, em conjunto com o imposto predial e territorial. Alguns anos mais depois, o Supremo Tribunal Federal considerou ilegal a cobrança de tarifa, retornando o sistema de cobrança de taxa.

No início de sua gestão, promoveu reuniões com os empregados da Comlurb, apontando, por meio de projeção de fotos, os problemas que tinha previamente verificado nas operações de limpeza urbana e explicando como corrigi-los.

Por ocasião destas reuniões, declarou que a ASTA (uma associação internacional de agentes de viagens) realizaria, no final do ano de 1995, um congresso no Rio de Janeiro. A cidade deveria estar perfeitamente limpa por ocasião deste congresso, considerado por Gastão como vital para o turismo do Rio de Janeiro. Esta motivação revelou-se extraordinariamente eficaz para o aumento da produtividade e qualidade da limpeza.

Sengés preparou Plano Diretor de Limpeza Urbana, organizou um sistema de lavagem de logradouros, trazendo para o Rio instrutores espanhóis e inaugurou o Aterro Metropolitano, em Duque de Caxias, cidade vizinha do Rio.