LIXO NA ALEMANHA

 

APRESENTAÇÃO

O presente texto resultou de duas palestras proferidas pelo Dr. Wiedermann, nas dependências do BNDES no Rio de janeiro, em outubro de 1998. A primeira destinada a um público amplo e a segunda para técnicos da área de resíduos sólidos.

As palestras não pretendiam oferecer indicações exaustivas do estado-da-arte da tecnologia alemã em resíduos sólidos, muito menos fazer uma descrição detalhada da gestão desse setor neste país.

A idéia era enfatizar aspectos históricos, sociais e culturais da evolução da gestão de resíduos na Alemanha, pouco discutidos entre nós, mas de grande relevância para os interessados no assunto.

Solicitou-se ao palestrante que desse uma panorâmica de como se desenvolveu a política nacional alemã de resíduos sólidos, mostrando o seu avanço planejado e paulatino. Também temas a que damos pouca importância, como a padronização de vasilhames e o estabelecimento de tarifas de lixo, deveriam ser ventilados.

A escolha da Alemanha para este propósito não se dá apenas por ser o encontro patrocinado por entidades direta ou indiretamente ligadas a este país. A Alemanha é reconhecida hoje como um dos países que mais avançaram no setor de resíduos sólidos, tanto a nível tecnológico como na gestão e no envolvimento da população.

Por outro lado, é importante lembrar que de longa data o imaginário popular da limpeza urbana no Brasil se volta particularmente para três países europeus: Alemanha, Suíça e Holanda. E isto se firmou sobretudo por meio de relatos de viajantes latinos, que percorreram a Europa em fins do século passado e início deste.

Acentuada era a limpeza das cidades desses países, contraposta não raro à sujeira das nossas!

Isto se evidencia no livro Geografia de Dona Benta, escrito em 1935 por Monteiro Lobato, cuja obra influenciou várias gerações. Neste livro, um interessante diálogo se dá quando os personagens estão "visitando" os países do Velho Continente. Nesse contexto diz Pedrinho à avó:  

"- Como a senhora é alemã! exclamou Pedrinho. Engano, sou apenas justiceira e não me deixo levar por propaganda, meu filho. Admiro a Alemanha por mil e uma razões. Admiro suas cidades maravilhosas, de organização, de asseio, de ordem, de bom arranjo, de tudo. Admiro suas aldeias encantadoras, admiro a ausência da sujeira latina, da desordem, da lambança tão nossa conhecida.

Sobre a Holanda diz ela:

"Hoje a vida ali é perfeita. Ordem absoluta, asseio inigualável. O asseio das cidades e aldeias holandesas tem fama. Nas cocheiras até penduram a cauda das vacas por um cordel para que não se sujem. As mulheres não largam a vassoura. Tudo lá alumia."

E sobre a Suíça:

"Suas cidades e aldeias, repimpadas pelas encostas dos Alpes, eqüivalem a jóias. Um encanto a Suíça. Um povo felicíssimo."

Não se trata aqui de tecer elogios gratuitos a esses países, e em particular à Alemanha; muito menos de falta de reconhecimento dos problemas que esta, não só à época, como até hoje enfrenta. Mas é importante reconhecer que no nosso imaginário, inclusive na nossa baixa auto-estima, os países citados representaram um papel importante. Por outro lado, os viajantes que vieram da Europa para cá, também no século passado e início deste, acentuaram muito a questão da sujeira latina. Segundo Gilberto Freyre, nem Darwin nos poupou.

Ao convidar o Dr. Wiedemann, do Umweltbundesamt (Agência Federal do Meio Ambiente), a idéia era, portanto, trazer um pouco da experiência e da história alemãs, que não são feitas apenas de sucessos. É importante destacar que há 30 anos, tinha o país ainda uma situação muito delicada na área da destinação final do lixo.

A proposta é que esse contato com as soluções e os problemas encontrados em outro país possa ajudar-nos a refletir sobre nossa própria situação. Não se trata, pois, de um trabalho apologizando um determinado equipamento, ou uma- proposta técnica, prática tão comum hoje nos nossos seminários. O importante é aprender a discutir a questão do lixo de forma comparada, levando-se em conta também aspectos históricos, políticos e culturais, e não exclusivamente técnicos.

Agradecemos ao Dr. Wiedemann por aceitar o convite para visitar novamente o Brasil, onde morou durante alguns anos, e principalmente pela forma franca, serena e paciente com que discutiu com os participantes do Seminário.

Certamente esse breve texto não expressa a riqueza dos encontros, mas serve como pretexto para um debate mais amplo. O texto pretende tão somente socializar, ao menos em parte, as discussões realizadas.

Parabenizo a AFEBA e ao Goethe-Institut pela escolha oportuna do tema, e também ao BNDES que gentilmente acolheu os participantes em suas instalações.

Prof. Emílio M, Eigenheer

Coordenador do CIRS/UFF

 

LIXO NA ALEMANHA:

ASPECTOS HISTÓRICOS, TÉCNICOS E CULTURAIS

por Dr. Hartmut U. Wiedemann

 1. Introdução

No alemão a palavra "Entsorgung' significa o contrário da palavra "Versorgung". "Versorgung" seria em português "abastecimento, fornecimento", e "Entsorgung" o inverso. No português como no inglês falta uma palavra com o significado que é dado em alemão. Emprega-se então em inglês o termo "management' e fala-se de "waste management", que se poderia traduzir livremente por "gestão", "gestão de resíduos sólidos".

A gestão de resíduos sólidos (Entsorgung) inclui na Alemanha as seguintes atividades:

 O cidadão alemão está acostumado aos serviços de saneamento básico. O fornecimento de água tratada, a captação subterrânea do esgoto e sua purificação numa planta de tratamento se fazem em todas as cidades e na maioria das aldeias. Também a limpeza pública das ruas e praças, estradas e autopistas, além da coleta semanal do lixo doméstico são serviços com a mesma amplitude. O cidadão paga as tarifas por eles, sem reclamar, basicamente por três motivos:

  1. O grau de instrução da população é suficiente para que compreendam a importância dos sistemas implantados e as conseqüências no caso de faltarem. As raras greves no setor da limpeza pública, por exemplo, demonstram a que ponto se pode chegar quando o lixo não é removido com regularidade.

2 O cidadão não pode deixar de usar os sistemas de saneamento sem violar os regulamentos pertinentes. A entrega do lixo, por exemplo, às entidades de limpeza pública é obrigatória.

3. As tarifas não são insuportavelmente altas para o padrão econômico alemão.

 

II. Aspectos da Gestão de Resíduos Sólidos na Alemanha

Feitas essas breves considerações, vamos nos deter agora em alguns aspectos da complexa questão da gestão de resíduos.

a) Padronização de vasilhames

Este é um aspecto importante da limpeza urbana, e que em muitos países não tem merecido a devida atenção.

Na Alemanha, os primeiros vasilhames padronizados, de metal galvanizado, de 110 litros de volume foram utilizados em Munique a partir de 10 de julho de 1898. Faz, portanto, cem anos que uma cidade alemã introduziu vasilhames padronizados. Munique era ainda uma cidade pequena, tendo ultrapassado o primeiro milhão de habitantes só nos anos sessenta do século XX. Com o novo sistema de coleta em Munique foram removidos 124 mil metros cúbicos de resíduos sólidos em 1899. Os resíduos consistiam principalmente de cinza, escória, resíduos de cozinha e varredura com baixo teor calórico.

Em 1901, cerca de 75% dos lares de Berlim dispunham de vasilhames padronizados, e antes de 1851 os proprietários das casas já pagavam taxas pela remoção dos resíduos sólidos domésticos. A coleta era realizada por cerca de sessenta empresas particulares. Em 1877 o número de habitantes da cidade ultrapassou um milhão. Em 1895, quando era ainda capital do império alemão, nela foi introduzido um tipo de coche para coleta de resíduos sólidos domésticos, que evitava que a poeira destes (notadamente cinzas) se espalhasse pela cidade. Também vasilhames especiais foram desenvolvidos para evitar poeira.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A introdução dos vasilhames padronizados, além das vantagens estéticas e higiênicas, facilita a coleta e possibilita a cobrança de tarifas, tomando o volume de lixo gerado como parâmetro.

 

 

b) Tarifas de lixo

Segundo o código atual de Limpeza Urbana de Berlim, o volume mínimo do vasilhame que devo utilizar e pagar é de 30 litros por semana. Por ele, sendo ou não usado, pago anualmente 220 DM (aproximadamente 130 US$).  

Há diferenças de tarifa de uma cidade para outra. Na antiga Alemanha Oriental os valores são menores por continuarem a utilizar os velhos aterros e pelo fato de não se dispor aí de novos incineradores. O custo da disposição de resíduos em aterro sanitário pode ser estimado entre 50 e 400 DM/t, ficando a média entre 100 e 200 DM/t (aproximadamente 60 a 120 US$/t). No caso do tratamento em incinerador de lixo, os custos são mais altos, no mínimo 200 DM/t.

As tarifas dependem dos custos reais da gestão de resíduos. A tarifa individual do usuário depende menos da quantidade de lixo que ele produz e mais do tamanho do vasilhame que ele utiliza. Em grandes condomínios e edifícios faz-se uso de contêineres maiores (coletivos). Os custos neste caso são distribuídos entre os moradores (ou empresas) em relação aos metros quadrados dos apartamentos, e não em relação ao número de indivíduos por lar. Em Berlim um vasilhame de lixo de 240 litros, suficiente para um conjunto de seis residências com coleta semanal, custa 570 DM por ano (aproximadamente 335 US$). Este tipo de vasilhame é usado para o chamado Restmüll (resto do lixo), pois, como veremos, existem outros sistemas de coleta de resíduos que visam o reaproveitamento do lixo. Assim, adicionalmente encontram- se nesses locais de apartamentos e/ou escritórios vasilhames em diferentes cores para coleta separada de vidros e outras embalagens. A utilização destes outros vasilhames não é cobrada pela Prefeitura, visto que as taxas estão incluídas no preço da mercadoria comprada. Quando usados, esses contêineres ajudam os moradores a diminuir o volume do lixo colocado no próprio vasilhame (Restmüll).  

Esses contêineres de diferentes cores para coleta separada de papel, vidros, outras embalagens, baterias e roupa usada, estão disseminados em locais públicos, como serviço gratuito. Mesmo as pequenas vilas dispõem desse serviço, implantado em lugares de fácil acesso.

 

 

c) Cronologia e conteúdos básicos das leis e decretos federais

A atual gestão de resíduos sólidos na Alemanha foi organizada paulatinamente.

Uma das primeiras leis federais alemãs relativas ao meio ambiente foi a Lei de Manejo de Águas (Wasserhaushaltsgesetz) de 1957. Foi ela, pode-se dizer, que deu início à conscientização ambiental na Alemanha. Esta lei contém dois parágrafos sumamente importantes, dedicados à estocagem e à disposição de resíduos em geral. São os parágrafos 26 e 34, que exigem, respectivamente, o não comprometimento das águas superficiais e subterrâneas. Indica-se que materiais, incluindo o lixo, podem ser dispostos e de que maneira, para que se garanta a não poluição das águas.

 Na Alemanha, é importante destacar, há uma grande preocupação com as águas subterrâneas, já que é delas que vem a maior parte da água utilizada no país. As autoridades ligadas à água sempre tiveram muita força, e a crescente poluição dos rios indicava que se chegara a um ponto crítico. Não se podia continuar lançando esgoto e resíduos industriais nos rios. Por outro lado, foi ficando clara a ameaça dos lixões espalhados pelo país à conservação das águas subterrâneas. A legislação sobre a conservação das águas deu início a uma pressão para se tratar adequadamente os resíduos sólidos. As autoridades da área hídrica não precisavam comprovar a existência de contaminação, mas apenas mostrar lógica e cientificamente o perigo. São autoridades de grande responsabilidade na Alemanha, e não estão sujeitas a pressões políticas.

 Por sua vez, existe também na população um consenso posterior da importância da água potável. Pão e água, na pia tradição cultural germânica, são elementos sacros.

 Foi, portanto, este "princípio de preocupação" (Besorgnis- grundsatz) com a limpeza das águas que direcionou o posterior desenvolvimento das políticas de manejo dos resíduos domésticos, industriais e perigosos.

Mostrou-se que os lixões, em grande número existentes na Alemanha, não cumpriam as novas exigências. Nesta época havia cerca de 50 mil lixões na Alemanha Ocidental. A co-disposição (co-disposal) de lixo doméstico e resíduos industriais era comum, assim como a de resíduos líquidos e sólidos. Esta co-disposição extinguiu-se durante os anos setenta. A maior parte dos lixões devia ser fechada e controlada (selagem, drenagem, etc.) Novos aterros precisaram ser construídos, a partir da promulgação, em 1972, da primeira Lei de Disposição de Resíduos (Abfalíbescitigungsgesetz).

Tais mudanças exigiram grandes investimentos, mas se deram num momento econômico muito propício na Alemanha. A recuperação dos antigos lixões é excepcionalmente cara.

A selagem da base dos novos aterros e a drenagem e tratamento do chorume incorporaram-se rapidamente ao estado da arte da destinação de resíduos. Em geral, os antigos lixões não foram reformados, mas fechados. Hoje, contando com os da antiga DDR, a Alemanha precisa sanear ainda, a altos custos, cerca de 80 mil lixões antigos, dos mais variados tipos e tamanhos.

A Agência Federal de Meio Ambiente (Umweltbundesamt), fundada em Berlim no ano de 1974, exerceu marcante atuação nas décadas de setenta e oitenta, propiciando progressos tanto na legislação como na implementação dos regulamentos existentes.

Um amplo catálogo de, resíduos sólidos e líquidos das mais diversas procedências foi elaborado. Cada tipo de resíduo recebeu um código para facilitar o processamento de dados na fiscalização e na estatística. O lixo doméstico (código 91.100) passou a ter uma caracterização própria.

Numerosas ordenações foram promulgadas:

Em 1986 uma nova lei foi promulgada para estabelecer novas diretrizes no manejo e no tratamento de resíduos a um alto nível técnico (Abfallgesetz). Nova era também a obrigação de se evitar a geração de resíduos e de reaproveitá-los.

De grande importância foram também as duas instruções Técnicas sobre tratamento e disposição de resíduos perigosos (TA Sonderabfall)de 1991, e de resíduos residências (TA Siedlungsabfall) de 1993. Estas instruções, dirigidas às administrações públicas, são regulamentos bastante detalhados para o licenciamento e a supervisão de todos os estabelecimentos de manejo de resíduos, incluindo as centrais de incineração e os aterros.

Estabeleceram-se diferentes tipos de aterro:

Estabelecimentos que foram regulamentados incluem:

 É importante destacar que na instrução técnica sobre resíduos residenciais de 1993 ficou estabelecido que a partir de 2005 não se permitirá a disposição de lixo orgânico e lodo orgânico não tratado. Esta exigência leva na prática, a partir desta data, ao fim do aterro sanitário como é hoje concebido.

O tratamento exigido deve produzir um resíduo, do próprio lixo ou lodo, com um teor orgânico bem baixo. O limite estabelecido é de 3%, determinado como carbono orgânico total (TOC) ou, alternativamente, de 5%, determinado como perda de ignição. Isso é o limite máximo para resíduos a serem enviados para o aterro da classe II (resíduos sólidos não-perigosos). A opinião dos técnicos é que somente com a incineração será possível manter-se um teor orgânico tão baixo, não sendo possível alcançar esses índices com métodos de tratamento biológico. A instrução técnica não exige diretamente a incineração, mas ela passa a ser uma das bases do estado da arte sugerido.

Em 1991 uma ordenação sobre embalagens foi promulgada. Ela não obrigava o consumidor a separar embalagens do lixo doméstico, mas obrigava o comércio a oferecer condições e a estimular o interesse dos consumidores em utilizar os sistemas oferecidos de recolhimento de embalagens, e finalmente a organizar a reciclagem dos materiais coletados separadamente, como vidros, alumínio, ferro ou plásticos. Inicialmente se pensou basicamente em um reaproveitamento do material através da reciclagem. Atualmente possibilita-se o seu uso como material energético.

Os custos do sistema são pagos através da indústria e do comércio, e transferidos para o preço dos produtos. O chamado "Ponto Verde" impresso nas embalagens é a indicação de que a coleta e a recuperação da embalagem estão asseguradas por um sistema paralelo de coleta. Com os recursos arrecadados com o "Ponto Verde", foi implantado, em quase toda a Alemanha, um sistema paralelo para recolhimento de embalagens (Dual System Deutscbland - DSD).

Paralelamente ao sistema "Ponto Verde", o consumidor pode pagar depósitos por certos tipos de garrafas, de vidro ou Pet, e retorná-las diretamente à loja onde as comprou. A taxa de depósito fica entre 0,15 e 1,00 DM por garrafa. Muita frustração é causada pela grande variedade de garrafas que não podem ser entregues em qualquer loja ou supermercado, mas só naqueles que a têm no seu sortimento.

 

 

 

A lei de Resíduos de 1986 foi substituída em 1994 pela Lei de Reciclagem. e de Resíduos (Kreislaufwirtschafts- und Abfallgesetz), que estabelece a responsabilidade dos produtores:

Em 1998 ainda duas ordenações foram elaboradas:

Em lugar de depositar pilhas e acumuladores no lixo, agora o consumidor está obrigado a entregá-los diretamente aos vendedores ou em pontos de coleta especial. As baterias, além de conter metais tóxicos, são de grande interesse econômico. As vendidas anualmente na Alemanha contêm:

 

d) Situação atual

No início da década de noventa a Alemanha reunida gerava por ano 40 milhões de toneladas de resíduos sólidos. A metade era composta de lixo doméstico. Com 80 milhões de habitantes isto significa uns 250 quilos de lixo por cabeça anualmente, bem abaixo da média de 351 da antiga Alemanha Ocidental.  

Hoje a coleta seletiva está organizada em toda a Alemanha e funciona razoavelmente. Ainda há suficiente disciplina por parte de alguns segmentos da população, pois a participação é voluntária. Outro problema está na viabilidade técnica e econômica da reciclagem de vários materiais recolhidos.  

A economia do sistema depende muito dos custos e dos preços de mercado da matéria virgem (como petróleo, celulose e minérios). 'Porém a escassez, por exemplo, de certos metais não está refletida apropriadamente nos preços do mercado mundial.

As taxas do "Ponto Verde" são efetivamente subsídios para atividades não-econômicas.

Deve ser compreendido também que há limites para a reciclagem. Em muitos casos a "reciclagem" é uma ciclagem para baixo (down-cyclíng), a um nível de qualidade cada vez inferior.  

A reciclagem de plástico é uma das mais difíceis. Normalmente ele é recolhido com contaminastes (sujeira), e sua coleta e transporte (leve e volumoso) custam caro, assim como a necessária "segunda separação" feita manualmente. A grande variedade de tipos de plástico cria grandes dificuldades para a seleção. A matéria secundária que se origina do processamento tem baixo valor econômico, e serve unicamente para produzir bens de baixa qualidade.

Além disso, na Alemanha o petróleo que entra na produção de plásticos se limita a apenas 3% do consumo total, uma quantidade negligenciável. Há outras opções para se economizar petróleo, como por exemplo nos setores de automóveis e aquecimento. Assim, o processamento de plásticos visando a geração de energia é aceitável principalmente devido ao seu alto teor energético.

Na Alemanha existe também um processamento de plásticos através da hidração (tratamento com hidrogênio). Trata- se de uma opção que vale somente porque já se tinha anteriormente uma planta de hidração ligada ao fornecimento de hidrogênio industrial no Distrito do Ruhr. O óleo fabricado por este processo só pode concorrer no mercado com subsídios.

Escândalos episódicos ligados aos plásticos oriundos dos resíduos domiciliares recebem grande destaque na mídia. Estão relacionados quase sempre à exportação deles para países do Terceiro Mundo.  

A coleta seletiva de vidro e papel funciona e vale a pena. O vidro é derretido com mais facilidade do que o quartzo, porque já contém álcali. Economiza-se energia e soda.

Também estabeleceu-se um bom mercado para papel velho. A indústria alemã importa papel velho de países vizinhos. A qualidade do papel coletado na Alemanha é baixa, já que a coleta seletiva de papéis de qualidades distintas (revistas, jornais, papelão, etc.) foi extinta, em favor da coleta mista.

Vale mencionar que a coleta de lubrificantes (óleos e graxas) e a sua posterior reciclagem estão funcionando bem na Alemanha, pois têm longa tradição, vinda já dos tempos de guerra e pós-guerra.

Também o reaproveitamento de roupa usada funciona razoavelmente. Organizações caritativas (corno a Cruz Vermelha), além de empresas comerciais, coletam roupa usada. Há um mercado amplo, voltado para a Europa Oriental e a Ásia, para esse tipo de mercadoria.

Na Alemanha existem aproximadamente 50 incineradores de lixo. Infelizmente situam-se quase todos na parte ocidental. No ano da reunificação alemã apenas dois estavam localizados no lado oriental.

Um novo incinerador, com capacidade para 200 mil toneladas de lixo por ano, custa por volta de 100 milhões de marcos. Com os problemas atuais de financiamento fica difícil ampliar o número deles, necessários à demanda atual, principalmente na Alemanha Oriental.

Além disso o Partido Verde e outras organizações ambientalistas influentes (como o Greenpeace) se opõem à incineração de lixo.

As chamadas "dioxinas" não constituem hoje um problema técnico para a incineração na Alemanha, visto que o limite máximo de emissão para todas as dioxinas e furanos clorinados está estabelecido em 0,1 ng TE por metro cúbico de gás de chaminé. Com as modernas técnicas de despoluição, todos os incineradores alemães ficam dez até cem vezes abaixo desse limite estabelecido pela 17a. Ordenação pela Proteção contra Emissões (de 1990).

Os resíduos oriundos da incineração podem ser também reutilizados, e cada vez menos são dispostos em aterros. Utiliza-se escórias da incineração em parte ainda na construção de caminhos e estradas, e a cinza de filtro no preenchimento de minas subterrâneas.  

Cinza de filtro (filter asb, fly asb) de incineradores contém metais de interesse econômico:

 Tecnicamente é possível extrair esses e outros metais. Entretanto os preços destes no mercado mundial são baixos, fazendo com que o processamento da cinza se torne antieconômico.

 As técnicas de tratamento existem e estão se aperfeiçoando. Em metrópoles a incineração do lixo é, por enquanto, uma solução mais apropriada do que o aterro sanitário. A separação de plásticos, quando há incineração, não é necessária, dado que num incinerador que produz vapor, pode-se aproveitar o alto teor de energia neles contido.

 Os resíduos sólidos inorgânicos da incineração perfazem menos de 30% da massa do lixo. A escória pode ser utilizada, como dissemos, como material de construção.

 

e) Dificuldades de percurso

A participação da população na conservação da limpeza das cidades é relativamente boa, uma vez que a educação é generalizada e satisfatória. Mesmo assim, observa-se de forma crescente nas ruas, nas estações de trem e metrô, nas áreas ajardinadas, nos parques, nas florestas, no campo, nas montanhas, nas praias, o descuido com os resíduos.

A coleta seletiva funciona melhor em bairros residenciais com predominância de casas e pequenos edifícios (com poucos apartamentos), onde os moradores são, via de regra, mais educados. Quanto maior o adensamento e menor o nível cultural, tanto maiores são as dificuldades para uma coleta seletiva eficiente. O abuso aumenta com o anonimato.

Nas áreas onde são grandes os problemas relativos à coleta seletiva, é preferível uma boa coleta tradicional a sistemas de separação. Contudo não se deve descuidar, em qualquer situação, da educação e da fiscalização.

 O material coletado pelo DSD (basicamente embalagens) é posteriormente triado de forma manual, em locais apropriados, pertencentes às empresas licenciadas para o serviço de coleta. Entre 30 e 40% do material recolhido se transformam em rejeito e têm que ser dispostos.

 A compostagem de resíduos orgânicos é um caminho viável, e em certas cidades ou alguns bairros (Berlim por exemplo) há coleta especial de resíduos orgânicos domésticos. De modo geral, a compostagem funciona melhor em sistemas descentralizados. A compostagem no próprio quintal é superior a qualquer outra forma, e serve bem ao aproveitamento de resíduos orgânicos domésticos, produzindo um adubo de boa qualidade.  

A compostagem centralizada de resíduos verdes de jardins particulares, de parques públicos e da queda de folhagem nas ruas no outono, recebe, junto com o material orgânico, também plásticos, latas, vidro quebrado, etc. Estes materiais comprometem a qualidade do composto, que permanece, porém, dentro dos limites estabelecidos. A compostagem centralizada, sem uma pré-seleção do material orgânico, é hoje impensável na Alemanha.

 

f) Aspectos sócio-culturais

Remoção e tratamento de lixo e de outros resíduos sólidos, assim como de esgoto e outros efluentes, são atividades indispensáveis da nossa cultura urbano-industrial. Todo material que entra numa cidade deve de alguma forma sair novamente.  

Os bens chegam de caminhão, navio ou trem, de forma organizada e efetiva. Igualmente a remoção dos resíduos deve ser organizada e tem seus custos. Não basta descarregar o lixo em um lixão e lançar o esgoto diretamente no rio ou no mar, sem tratamento adequado.  

As dificuldades econômicas por que passam a Alemanha e os países em geral, dando lugar a uma "nova pobreza", seja de indivíduos, seja da inadequada prioridade social da distribuição dos recursos públicos, não resulta da construção, operação e manutenção das necessárias e apropriadas infra-estruturas de saneamento. Se assim fosse, esses custos constituiriam então sérias restrições para o crescimento econômico e social da população, tornando até mesmo questionável ou insuportável o avanço da produção.

 

 

HARTMUT ULF WIF-DEMANN nasceu na Alemanha em 1938

Formou-se em Geologia na Stuttgart Universitãt em 1964, onde dois anos depois também se doutorou.

Fez seu pós-doutorado em Geologia na Johns Hopkins University, USA, em 1967, e foi professor-assistente na Georgia University entre 1967 e 1971.

Foi pesquisador no Instituto de Pesquisas Espaciais em São José dos Campos, SP, nos anos de 1971 e 1972, e a seguir, em 72 e 73, foi professor-visitante de Geologia na Universidade da Bahia.

Entre 1974 e 1981 trabalhou como pesquisador na Agência Federal de Meio Ambiente da Alemanha (Umwelt- bundesamt).

Em 1982 voltou por dois anos à Universidade da Bahia como professor visitante.

De 1984 a 1992 trabalhou como livre-docente na Technische Universitãt Berlin, e desde 1984 continua no Umweltbundesamt, no setor de resíduos sólidos e água.