Está comprovada quimicamente a viabilidade do emprego de borracha de pneu usado em materiais de engenharia. A conclusão é da pesquisadora Nádia Cristina Segre que, em sua tese de doutorado, comprova que a mistura de borracha de pneu moída e pasta de cimento resulta num composto resistente à abrasão e à flexão, propriedades consideradas importantes do ponto de vista mecânico.



Ligada ao Instituto de Química (IQ), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e orientada pela professora Inês Joekes, Nádia Segre levou quatro anos e meio para chegar a um material ideal. Seus estudos foram financiados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Bacharel em química, com atribuições tecnológicas, Nádia e parte de seu grupo de trabalho sempre se dedicaram à química de cimento e são praticamente os únicos na área.



Ao definir o tema de sua pesquisa no doutorado, Nádia pretendia dar continuidade aos estudos químicos com o cimento e, ao mesmo tempo, usar um material reciclável. “Pensei primeiro no PET, mas a literatura que encontrei sobre o assunto registrava a incompatibilidade do material com o cimento”, conta ela, referindo-se às atuais garrafas plásticas de refrigerante denominadas simplesmente de PET (nome do material do qual são feitas: polietilenotereftalato). Segundo a pesquisadora, a explicação para tal incompatibilidade é que o material é pouco resistente ao meio alcalino, fator predominante no cimento.



Ao escolher a borracha, Nádia se deparou com algumas limitações. Ela já sabia, também por meio de pesquisa na literatura sobre o assunto, que o material não aderia bem à superfície da matriz de cimento. Os estudos que indicavam isso, no entanto, tinham como enfoque a análise das propriedades mecânicas da mistura.



Surgiu então a idéia de tratar a borracha para melhorar suas propriedades na adição à pasta de cimento. “Além do mais, eu pretendia encontrar um processo de baixo custo que não inviabilizasse a tecnologia”, diz. Nádia usou dois reagentes simples e muito usados na química, o ácido sulfúrico (H2SO4) e hidróxido de sódio (NaOH). Após vários ensaios para testar propriedades como a resistência à flexão e à acidez, e averiguar a densidade, ficou demonstrado que a mistura de cimento e borracha tratada com NaOH apresentou os melhores desempenhos.



Os ensaios feitos especificamente para verificar propriedades que se relacionam mais à questão da adesão da borracha à matriz também levaram à mesma conclusão. E mais, que o novo material tem aplicabilidades na engenharia civil. O cimento adicionado à borracha poderia ser usado em materiais que exijam resistência moderada como, por exemplo, pisos. Para isso, foram feitos também ensaios mecânicos.



A resistência à flexão e à abrasão, duas propriedades importantes quando se desenvolve um material para pisos, se apresentam na mistura num nível bem satisfatório, segundo Nádia. Ela, no entanto, chama a atenção para a necessidade de estudos de engenharia mais aprofundados para atestar a aplicabilidade definitiva para o material. “Apresentei o primeiro trabalho que comprova o uso da borracha na engenharia, mas será preciso que pesquisadores da área se interessem em se aprofundar na questão, utilizando puramente o enfoque da engenharia. É diferente”, afirma Nádia.



A borracha utilizada na pesquisa foi cedida por uma das únicas empresas que reaproveita borracha de pneu usado no país, a Borcol Indústria de Borracha. Sediada em Sorocaba, no interior paulista, a empresa fabrica tapetes para carros com borracha virgem e usada. A pesquisadora atribui o sucesso em alcançar propriedades tão boas ao tamanho da borracha empregada. “Usamos uma fração bem moída e isso nos permitiu utilizá-la como adição, que não funciona com partículas grandes”, explica.



As partículas tinham granulometria menor que 35 mesh, ou seja, os orifícios da peneira na qual a borracha<

Ano da Publicação:
2007
Fonte:
http://www.radiobras.gov.br
Autor:
Rodrigo Imbelloni
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