Um sapateiro de Franca, no interior paulista, ganha a vida aproveitando tudo o que as fábricas de calçados masculinos não querem mais.



Ele só trabalha com matéria-prima que encontra no lixo e não pára de conquistar clientes.

Afinal, quem resiste a um par de sapatos, novinho em folha, por um precinho pra lá de camarada?



Nos pés de Fernando qualquer sapato passa por um rigoroso teste de qualidade. Bem antes do sol nascer ele já está nas ruas, atrás do que dá um bom dinheiro e ninguém percebe: pares de calçados novinhos, que as fábricas jogam no lixo.



Não é só recolher e depois vender. Alguns têm defeitos, mas para Fernando não importa. Podem ser de pés diferentes, marrom, preto, com ou sem detalhe, que ele dá um jeito. “Se ficar o dia inteiro procurando sapatos, eu encho um ônibus ou caminhão.”



Tem muita coisa jogada nas caçambas, porque Franca é a capital do sapato masculino. Tem 600 fábricas, que exportam para mais de 60 países. Fernando passa em pelo menos 50 indústrias. Não leva só sapato. Ele enche o porta-malas do carro com baldes de tinta, pedaços de couro e prego. Às vezes, ainda precisa de um empurrãozinho para seguir em frente.



Fernando recolhe entre 800 e mil pares de sapatos por dia. Os calçados são separados e depois desmontados. Com o solado e partes do couro que sobram, Fernando produz novos sapatos.



Num depósito, uma confusão que só Fernando consegue entender. Sapatos meio parecidos para um lado, diferentes para o outro e uma montanha de matéria-prima. Uma tinta aqui, um retoque ali e o artista da sapataria entra em ação.



Em quarenta minutos, os sapatos estão novinhos em folha, sem remendo, sem qualquer defeito. Nem dá pra gente perceber onde houve transformação. Depois, mais uma corridinha até a esquina para montar a lojinha em cima do próprio carro. E não é preciso nem propaganda. Sapato novinho por R$ 15 é tudo que os clientes mais querem.



Dez anos de fábrica em fábrica, Fernando encontrou na reciclagem de sapatos renda para viver, comprar carro, terrenos e construir uma casa de 500 metros quadrados.

Ano da Publicação:
2007
Fonte:
http://jornalhoje.globo.com/JHoje/0,19125,VJP0-3062-110678,00.html
Autor:
Rodrigo Imbelloni
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