Reciclagem, sim! Mas o objetivo mesmo é a redução da geração de resíduos. Esta é opinião do economista Luiz Prado, pós-graduado em Biologia e Ecologia Humana pela Faculdade de Medicina de Paris e colunista de Meio Ambiente do Programa do Boechat, na Rádio Bandnews.

Em entrevista exclusiva para o site Meu Lixo, Prado fala sobre as estratégias para conscientizar a população sobre a necessidade de se fazer a coleta seletiva, diz que não acredita que o mundo possa continuar consumindo do jeito que está, e explica por que uma ênfase excessiva na reciclagem pode prejudicar a diminuição de lixo no planeta.

Meu lixo – Hoje em dia, a reciclagem ganhou dimensões profissionais e o brasileiro já percebe a importância deste processo. Mesmo assim, a maioria, embora entenda a importância da reciclagem, ainda não recicla. O que falta para isso acontecer?

Luiz Prado – Falta talvez toda a consciência das camadas mais pobres da população e talvez da classe média baixa, mas, fora isso, acho que faltam os equipamentos nos locais de moradia para que isso aconteça.
Resende, ultimamente, está analisando um projeto de lei que determina que todo condomínio, vertical ou horizontal, tem que ter uma área para disposição do lixo coletado pela coleta seletiva, então acho que é por aí.

Meu lixo – Esta infraestrutura que você citou deve partir do governo, de empresas, de ONGs, da sociedade? Da onde deve vir?

Luiz Prado – Eu acho que no momento é bom que parta de todos os lados. O governo quando toma este tipo de iniciativa, como a que cidade de Resende tomou, de obrigar que os condomínios tenham espaço para depósito do lixo coletado. As Ongs, evidentemente, têm o papel tradicional delas de promover a conscientização da população etc. Um trabalho que também vem sendo feito pelo governo, que é o de organizar a coleta seletiva, de organizar os catadores, e por aí fora, porque uma das inseguranças que as pessoas têm é se este lixo da coleta seletiva não vai parar dentro do mesmo caminhão de lixo, como aconteceu frequentemente no passado e ainda acontece por aqui e por ali.

Meu Lixo – Que estratégias podem ser feitas para conscientizar as pessoas sobre a necessidade da coleta seletiva?

Luiz Prado – Quando eu morei nos Estados Unidos, eu vi o surgimento da coleta seletiva lá. Existiam muitas estratégias diferentes. Então, por exemplo, em lugares que as pessoas vão sempre – as pessoas da comunidade vão sempre a igrejas, supermercado e tal. Eles começaram por ali. Pelo menos para algumas coisas, nesses lugares sempre tinha um anúncio de que existia um local para recolhimento do lixo separado. Lá todo mundo tem carro, então as pessoas colocavam o lixo no porta-malas do carro e na hora que paravam na igreja, no supermercado, deixavam o lixo. Na escola dos filhos, elas tinham um lugar para depositar o lixo delas. Este foi o primeiro passo da conscientização.

Meu Lixo – No seu blog, em um artigo, você fala que a ênfase que vem se dando à reciclagem pode ofuscar políticas orientadas para a redução da geração de lixo. Como isso funciona?

Luiz Prado – Bom, basicamente, eu acho que tem aí o grande nó da questão toda. Uma ênfase excessiva de um lado pode fazer com que as pessoas percam o foco. O objetivo final não é reciclar o lixo, é diminuir a quantidade de lixo. E isso pode só ser feito através de pressão sobre a indústria. Por isso, o Congresso brasileiro está discutindo uma lei que partilha a responsabilidade do destino final do lixo entre o produtor do produto, do carro, da garrafa, do jornal, etc. com o vendedor intermediário e o consumidor final. Esta discussão está demorando um pouco demais ao meu ver, e eu não tomaria esta linha. Eu seguiria o caminho de deixar um espaço para fazer a regulação caso a caso, como foi na Alemanha. Carro é uma coisa, tubo de pasta de dente é outra. O fabricante de pasta de dente ser o responsável por tirar o tubo de pasta de dente de circulação talvez seja muito complicado. Mas o fabricante de lâmpada, a loja de lâmpada, que contém mercúrio devem ser obrigados a estabelecer pontos de recepção. É uma decisão que tem que ser tomada pontualmente. Vamos ver como esta lei, se for aprovada, se ela vai posicionar uma posição para todos, ou se ela vai deixar espaço para que alguns regulamentos sejam feitos para produtos específicos. Mas basicamente é a ideia de que você minimiza a geração dos recursos, que você tem que diminuir a quantidade de embalagens, tem que simplificar um pouco a vida, até porque assim também os produtos vão saindo mais baratos. Mas isso é um outro ponto.

Meu Lixo – O consumo consciente pode vir a ser uma realidade em um mundo cada vez mais consumista?

Luiz Prado – A reposta direta à pergunta é que eu não acredito que esta sociedade de consumo possa continuar neste esquema programado. Os americanos há dois anos falavam em 3 bilhões de novos consumidores. Eles achavam que teriam 3 bilhões de pessoas que não consumiam e que deveriam ser integradas ao mercado. Evidentemente, um pescador na Amazônia não está preocupado em comprar laptops, não está discutindo se vai ter Windows Vista ou Windows XP. A sociedade de consumo não vai se sustentar. Em vista disto, dentro de países mais sérios, existem políticas integradas com planejamento de longo prazo, que vem fazendo a reconfiguração da sociedade de consumo.

Para conhecer mais sobre o entrevistado, visite o blog www.luizprado.com.br.

Ano da Publicação:
2010
Fonte:
http://www.meulixo.rj.gov.br/conteudo/planeta10.asp
Autor:
rodrigo@web-resol.org
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