Lixo – Luis Fernando Veríssimo

Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam



– Bom dia…



– Bom dia.



– A senhora é do 610.



– E o senhor do 612.



– É.



– Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente…



– Pois é…



– Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo…



– O meu quê?



– O seu lixo.



– Ah…



– Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena…



– Na verdade sou só eu.



– Mmmm. Notei também que o senhor usa muita comida em lata.



– É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar…



– Entendo.



– A senhora também…



– Me chame de você.



– Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim…



– É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas como moro sozinha, às vezes sobra…



– A senhora… Você não tem família?



– Tenho, mas não aqui.



– No Espírito Santo.



– Como é que você sabe?

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