Maré de lixo globalizado

Dia 27 de fevereiro de 2001. Cinco e meia da manhã. O surfista decide sair de Guarajuba até a Barra do Tariri (Linha Verde) durante cinco dias de verão. Pega um ônibus até Praia do Forte e, de lá, segue a pé pela areia. No corpo, nada mais que uma sunga. Na bagagem, uma barraca de camping e uma mochila. Palmilhar o caminho de areia é um prazer para ele, também mergulhador. Depois de passar pelos points de surfe de Praia do Forte, não há mais ninguém. Só se vêem os coqueiros e o mar.

À medida que alguns quilômetros de praia são vencidos, a boca fai ficando seca. E a sede aumenta. A garrafa azulada de água mineral é logo retirada do interior da mochila. Mas um gesto estouvado a deixa cair no chão. A tampa se desprende num movimento brusco. E o andarilho vê a água ser sugada com rapidez pela areia quente. Disposto a matar a sede o mais rapidamente possível, ele pensa em escalar o primeiro dos muitos coqueiros que vê pela frente. A imagem da água de coco fresca hidratando a garganta contrasta com a areia fofa e quente sob seus pés.

Foi precisamente nesse momento, quando planejava galgar o coqueiro, que Fabiano Prado Barreto, 30 anos, avistou um objeto que, mal sabia ele, seria o pivô de uma grande idéia que viria a mudar a sua vida. Era uma outra garrafa plástica, vazia, de água mineral, cujo rótulo dizia ser fabricada na Indonésia. Achou curioso e levou-a consigo. Pouco mais adiante, em busca do coqueiro que pudesse ser escalado, ele encontra outra garrafa de água mineral, desta vez da Coréia do Sul. Parecia até uma pegadinha de TV – mais alguns metros depois, outra garrafa com rótulo da Tailândia.

O tempo parou por um instante na cabeça de Fabiano. Ele olhou para o oceano e percebeu que aquele lixo só poderia ter sido trazido pelo mar, através das correntes marinhas e das ondas. E mais: os detritos só poderiam ter sido jogados pelas centenas de navios que cruzam a costa brasileira. Achou um saco semi-enterrado na areia e começou a enchê-lo com o lixo estrangeiro que foi encontrando pela frente.

No percurso de 10 km entre Praia do Forte e Imbassaí, coletou 88 embalagens, produtos diversos de 26 países diferentes: água mineral, leite, refrigerante, inseticida, alimentos, produtos de beleza, produtos de manutenção de máquinas, entre outros. De onde? Malásia, Índia, Grécia, Bélgica, Argentina, Austrália, França, China, Indonésia, Alemanha, Itália, África do Sul, Coréia do Sul, Tailândia, dentre outros.

Seguiu a força da intuição. Não sabia bem o que fazer com aquilo, mas sentiu que tinha algo importante em mãos. Dormiu numa pousada em Imbassaí e pediu aos funcionários do estabelecimento que guardassem seu “material”. Pretendia vir buscá-lo após uma semana. E foi o que fez. Sete dias depois, voltou à pousada, pegou o material, catalogou-o e fotografou-o. Procurou ainda jornais em Salvador e São Paulo a fim de publicar a história do seu achado. A empreitada estava apenas começando, havia ainda muitos frutos a serem colhidos.

Fotos denunciam poluição ambiental

Dois mil e quatro. Três anos se passaram após a descoberta do lixo estrangeiro na jornada de Guarajuba a Barra do Tariri. Fabiano Prado, então com 33 anos, é um dos que tocam a organização não-governamental alemã Local Beach, Global Garbage, cujos projetos são financiados pela Lightouse Foundation, na Alemanha.

Fabiano já morava em Portugal, no ano de 2001. Na época em que decidiu fazer a caminhada, estava em férias na Bahia, visitando a família. A idéia de denunciar a poluição das praias brasileiras pelos detritos de outros países foi amadurecida com o apoio da sua mulher, alemã. Quando contou sobre o lixo e mostrou o seu trabalho, as idéias foram surgindo.

O primeiro passo foi uma exposição numa universidade. Depois vieram outras, até que ele foi convidado a expor na sede do Ministério do Meio Ambiente do país. Fez faculdade e virou fotógrafo profissional. A princípio, não recebia dinheiro de nenhuma instituição. Quando perguntavam, dizia que se tratava de uma ação de retribuição: estava devolvendo ao oceano tudo o que desde criança este lhe teria dado. Começou a pensar em apoios, coligações. “O meu negócio era a história da globalização. O que é que a gente tem a ver com o seu lixo?”, eu pensava.

“Os países ricos difundindo pensamentos ecológicos, entretanto o lixo deles pára nas nossas praias”, conta ele. Voltou ao Brasil em 2002 e percorreu o mesmo trecho a pé, mas desta vez coletou o “lixo gringo” de Praia do Forte até Barra do Tariri: 730 embalagens. Levou um amigo para ajudá-lo. Fotografou, catalogou, levou para a Alemanha e fez novas exposições. Em 2003, coletou 524 embalagens. No mesmo ano conseguiu o primeiro apoio financeiro, vindo da Lighthouse Foundation: 14 mil euros, que deveriam ser utilizados para nova viagem ao Brasil, nova coleta de lixo, o que deveria resultar numa exposição fotográfica, com dados que iriam para Tókio (Japão) e Bombaim (Índia), esta última no Fórum Social Mundial daquele ano.

Foi o que aconteceu. De lá para cá, os apoios foram renovados, e hoje o projeto de Fabiano tranformou-se numa ONG. Mergulhando nessa história de lixo de embarcações, Fabiano descobriu que “o buraco é mais embaixo”, como ele diz. O projeto para o qual se dedica chama-se “Programa de Identificação das Origens do Lixo Marinho da Costa dos Coqueiros”, que é a região que compreende todas as praias da chamada Linha Verde.

Porto local recusa os detritos

O lixo vem dos navios que navegam pela costa e despejam o material no oceano. As correntes marítimas do Atlântico trazem o lixo para a costa brasileira. Foram essas mesmas correntes que trouxeram as embarcações de Cabral para cá. Como primeira estratégia, Fabiano começou a visitar os portos europeus, com cartazes chamando a atenção para o tema.
Porém, foi numa “conversa de botequim” com os marinheiros que ele descobriu a origem do problema.

“Eles me disseram assim: a gente joga o lixo no mar porque muitas vezes os portos do Brasil não recebem o lixo”. A ficha caiu. No Brasil, lixo de navio é considerado pela Anvisa do mesmo modo que lixo hospitalar, uma vez que não se sabe a procedência e pode haver conseqüências para o país que o recebe.

Por isso é que, por lei, todos os navios estrangeiros que chegam devem apresentar um documento que mostre onde foi descartado pela última vez o lixo. O problema é que não há fiscalização. Por isso também é que os portos devem estar preparados para receber lixo de embarcações e dar um fim viável nele, diz a lei. Este serviço é pago, feito por empresas terceirizadas (ou seja, os gastos não são do porto, quem paga é a empresa dona do navio). Na maioria dos países europeus, sem o aval da fiscalização, o navio não é liberado. Há penalidades e multas.

No Porto de Santos, por exemplo, existem empresas terceirizadas que se encarregam de coletar o lixo dos navios e incinerá-los em Cubatão. O Porto de Salvador não tem serviço de recepção de lixo de navios. “O que acontece? Eles jogam o lixo no mar, poluindo e a coisa acaba na praia. Todo aquele lixo que eu coletei”, continua Fabiano, hoje ativista ambiental. Fabiano zarpou para a Alemanha. Lá pretende continuar seu trabalho. Mas lamenta pelo fato de que, aqui no Brasil, as autoridades e órgãos de fiscalização não parecem dar atenção a algo tão relevante.

Os dez mais

Em 2004, 75 países jogaram 4.126 embalagens no mar. Este foi o saldo do lixo gringo recolhido na costa do Litoral Norte da Bahia

(Em embalagens)
USA
15,59%

Alemanha
8,50%

Itália
7,67%

Argentina
7,63%

África do Sul
6,43%

Espanha
4,18%

Reino Unido
4,07%

Cingapura
4,03%

China
4,03%

Bélgica
3,49%

Regina Bochicchio

Fonte: Projeto Praia Local – Lixo Global

Ano da Publicação: 2010
Fonte: http://www.globalgarbage.org/site_antigo/public_html/t_boc_170505.php
Autor: Rodrigo Imbelloni
Email do Autor: rodrigo@web-resol.org

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