O lixo da civilização

O problema do lixo acumulado em pleno século XXI cada vez mais se agrava, porque o Poder Público não tem a mínima agilidade e intenção de resolvê-lo. É como se esse lixo fosse invisível, até aparecer de forma monstruosa, assustadora. Li notícia ontem sobre os pátios lotados de carros apreendidos em São Paulo. Só em um deles há 25.000 carros, muitos em estado de deterioração, com vazamento de óleo e gasolina. E o mais grave de tudo é que esse pátio fica às margens da Represa de Guarapiranga, que abastece quase 4 milhões de pessoas em São Paulo. Se a água começar a ter gosto de óleo ou de gasolina, a explicação está aí.

É uma área de mananciais, protegida por Lei estadual. Para que serve essa lei, se os carros estão lá, apodrecendo, num gigantesco cemitério de automóveis, retratando a nossa civilização que não sabe o que fazer com o lixo que acumulou?

O estacionamento não tem licença e há quatro meses foi fechado. Mesmo assim, os carros permanecem lá, com o solo provavelmente contaminado. E a água também.

Segundo o dono do pátio, que recebe do governo do Estado para guardar os carros, nos últimos seis anos, a Secretaria de Segurança Pública realizou apenas dois leilões, retirando do local somente 50 carros, o que representa 0,2% do total.

Há outros pátios públicos e particulares em São Paulo, e só agora o governo começa a fazer um levantamento do número de veículos parados. A questão é: para onde levar tantos carros? Só se alugarem um estacionamento na Lua. E também não se pode esquecer dos danos causados ao meio ambiente. Quem pagará a conta por tamanha displicência?

Não só em São Paulo, mas também em outras capitais, milhares de carros permanecem meses ou anos em pátios, em verdadeiros cemitérios a céu aberto. Até quando?

Nos Estados Unidos, donos de iate e de barcos sofisticados, ex-milionários ou ex-bilionários, que perderam a sua fortuna na atual crise econômica mundial, tiveram centenas de barcos apreendidos por falta de pagamento das prestações ou da licença, ou os abandonaram por não terem mais condições de mantê-los. Marinas da Califórnia e da Flórida estão se tornando cemitérios de iates. O que representava luxo, status, até há pouco tempo, começa a se transformar em lixo nascido do luxo e da ostentação.

Somos civilizados. Altamente civilizados. A nossa civilização produziu lixo de alto luxo e não sabe o que fazer com ele. O meio ambiente e a população em geral tornam-se as grandes vítimas do consumo desenfreado e irresponsável. E os representantes públicos, seja aqui ou nos Estados Unidos, também não sabem o que fazer com esse lixão colorido, de alta tecnologia, mas que, daqui a alguns anos, cheirará mal, como qualquer outro lixo espalhado por aí. Pobre é a sociedade sustentada pelo luxo, consumo e não pela educação e cultura. O resultado está aí. E não para de crescer.

(O autor é cronista, poeta, autor teatral e professor de redação. jaimeleitao@linkway.com.br)

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